A obra-prima comovente, produzida em colaboração com Adrian Younge e a série Jazz Is Dead, é um tributo ao saudoso João Donato e chega no dia 7 de agosto
![]() |
Ouça "Janeiro” aqui.
Faça o pré-save do álbum aqui.
Joyce e Tutty Moreno, a lendária dupla de voz, violão e bateria que ajudou a definir o som da música popular brasileira, se juntaram a Adrian Younge para criar Joyce e Tutty Moreno JID027. Antecipando a chegada do projeto, o primeiro single, "Janeiro", já foi lançado e encontra-se disponível nas plataformas digitais. O álbum, construído com maestria, captura a beleza etérea da improvisação coletiva, o peso da saudade e o inquebrável laço musical entre dois dos artistas mais reverenciados do Brasil.
Frequentemente aclamada como a "voz feminina da música brasileira", Joyce é cantora, violonista, compositora e arranjadora, dona de uma carreira que atravessa mais de cinco décadas. Com uma discografia de mais de 30 álbuns, ela é uma das pioneiras da cena da MPB dos anos 1960 e uma força fundamental no jazz brasileiro. Seu marido e parceiro musical, Tutty Moreno, é um dos bateristas mais prestigiados do país, conhecido pelo toque delicado, pelo suingue e por décadas de parcerias com nomes que vão de Tom Jobim a Hermeto Pascoal. Juntos, eles representam o auge da sofisticação musical brasileira.
O que destaca Joyce no panteão da música nacional é a sua voz singular como compositora. Em uma época dominada por homens, Joyce despontou como a única mulher de sua geração a ser acolhida de igual para igual entre gigantes como Milton Nascimento, Toninho Horta, Marcos Valle e João Donato. Sua capacidade de brilhar nesse meio reflete não apenas o seu talento extraordinário, mas também a sua resiliência como mulher em uma indústria que vivia a pressionando para simplesmente cantar o que as gravadoras exigiam. Ela não cedeu. Ela escreveu. Ela fez os arranjos. Ela traçou o próprio caminho. E esse espírito de independência e integridade criativa pulsa em cada nota do álbum JID027.
O projeto começou a ganhar vida quando Adrian Younge e Andrew Lojero vieram ao Rio de Janeiro convidar Joyce e Tutty. O amigo do casal, João Donato, que já havia lançado o seu próprio disco JID007 pelo selo Jazz Is Dead, endossou a ideia e deu a sua bênção. O plano inicial era que Joyce e Tutty viajassem a Los Angeles para um show com Donato e, na mesma ocasião, gravassem o disco com Younge: um verdadeiro encontro de mentes criativas cruzando gerações e continentes.
De forma trágica, durante os preparativos para a viagem, Donato adoeceu gravemente. Em um único e comovente ensaio no Rio de Janeiro, ficou claro que a lenda de 89 anos sentia muitas dores. "Não conseguimos nem terminar o ensaio, de tanto que ele estava sofrendo", relembra Joyce. Diagnosticado com um tumor na coluna a poucos dias da viagem, Donato não pôde embarcar e faleceu logo em seguida.
"Preciso dizer que este trabalho foi feito em um momento muito difícil para mim e para o Tutty, porque nosso grande amigo e parceiro João Donato foi internado justamente nesse período, e nos deixou logo depois", conta Joyce. Tutty completa: "Nossas cabeças e nossos corações estavam com Donato".
Mesmo lidando com um imenso peso emocional, Joyce e Tutty viajaram para Los Angeles. O show, acompanhado por uma banda impecável de músicos locais, teve ingressos esgotados. Já as sessões de gravação, realizadas no estúdio Linear Labs de Younge, acabaram se tornando um processo de catarse. Joyce levou as partituras de suas composições pensadas para o disco, enquanto Younge contribuiu com bases instrumentais sobre as quais Joyce improvisou melodias e letras com um instinto brilhante. A bateria de Tutty — sutil, precisa e profundamente imersa na emoção — serviu de âncora para cada uma das sessões.
O álbum traz um equilíbrio delicado entre a composição prévia e o improviso. As faixas de Joyce — "Mandala", "Uanã Etê", "Is This Love", "Fingers" e "Janeiro" — dividem espaço com os temas instrumentais de Younge, nos quais a voz da cantora se transforma em um instrumento de sopro, uma flauta, um rio de melodias sem palavras. O encerramento fica por conta de "Círculo Vicioso", uma recitação do icônico poema de Machado de Assis. Declamada no português nativo de Joyce, a faixa se torna uma meditação sobre a vida, a morte e a natureza cíclica da arte.
Joyce e Tutty Moreno JID027 é uma prova da perenidade da arte do casal: um registro de dois mestres trabalhando no auge de suas capacidades, transformando o luto em beleza e nos lembrando por que a voz de Joyce, tanto escrevendo quanto cantando, segue sendo indispensável.
Sobre Joyce: Joyce (Joyce Silveira Moreno) é cantora, violonista, compositora e arranjadora, dona de uma carreira que tem desenhado o cenário da música brasileira desde os anos 1960. Carioca, ela surgiu nos lendários festivais da MPB, mesclando a elegância da bossa nova com a força rítmica do samba e a introspecção lírica da poesia. Com mais de 30 discos lançados, Joyce já colaborou com Vinicius de Moraes, Elis Regina, Toninho Horta e João Donato. Suas composições já foram gravadas por Sarah Vaughan, Claus Ogerman e Sergio Mendes. Sua voz — quente, ágil e reconhecida no primeiro instante — é uma das mais preciosas da nossa história cultural.
Sobre Tutty Moreno: Tutty Moreno é um dos mais respeitados bateristas e percussionistas do Brasil. Há mais de 40 anos, seu toque refinado e seu suingue impecável sustentam gravações e shows de nomes como Tom Jobim, Hermeto Pascoal, Nana Caymmi e, claro, Joyce. Um verdadeiro mestre das dinâmicas e texturas, o estilo de Tutty traduz o diálogo perfeito entre o samba e o jazz. Como principal parceiro musical de Joyce, ele ajudou a moldar a identidade rítmica dessa vasta discografia. JID027 marca o seu primeiro álbum colaborativo internacional pelo selo Jazz Is Dead.
Sobre Adrian Younge: Adrian Younge é um compositor, produtor e multi-instrumentista de Los Angeles cujo trabalho flutua na intersecção entre a composição orquestral, o soul, o jazz e o hip hop. Músico autodidata e com um profundo compromisso com a gravação analógica, Younge compõe, arranja e grava tudo diretamente na fita no Linear Labs, seu estúdio e polo criativo 100% analógico. Sua música bebe da fonte de compositores de trilhas sonoras que moldaram a linguagem emocional mais tarde absorvida pelo hip hop — artistas que priorizavam a atmosfera, a tensão e a narrativa no lugar das convenções. Com o passar dos anos, o catálogo de Younge virou uma fonte inesgotável de samples, com suas obras sendo recontextualizadas por alguns dos maiores gigantes do hip hop, reafirmando que o seu som é adaptável e atemporal. Além da carreira solo, Younge é cofundador do Jazz Is Dead, uma plataforma dedicada a produzir músicas inéditas com lendas vivas, ao mesmo tempo que expande a definição do que o jazz pode ser nos dias de hoje. Seja compondo para o cinema, produzindo álbuns ou testando arranjos orquestrais ao vivo para grandes plateias com bandas completas, Younge encara a música como um sistema vivo — algo que reverencia o passado enquanto insiste em olhar para o futuro.