Conheça a história da Dra. Danielle Alves na saúde mental da mulher
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| Foto: Divulgação |
Antes de se tornar referência em saúde mental da mulher, a trajetória da Dra. Danielle Alves foi construída muito além da formação acadêmica. Sua história na medicina começou pela obstetrícia e ginecologia, inicialmente guiada pelo interesse técnico. No entanto, ainda nos primeiros atendimentos, algo começou a chamar mais atenção do que qualquer procedimento. “Eu percebi que o que me prendia não eram as cirurgias, eram as histórias das pacientes”, relembra. Esse olhar mais sensível foi se aprofundando ao longo do tempo, mas ganhou força principalmente a partir das próprias vivências.
Ao falar sobre sua trajetória pessoal, Danielle não esconde a intensidade do que viveu. Ao longo dos anos, enfrentou desafios profundos. Viveu a maternidade acompanhada de depressão pós-parto, passou por separações, recomeços em outras cidades, enfrentou violência doméstica e precisou reconstruir a própria vida praticamente do zero. “Teve um momento em que eu voltei com a roupa do corpo, meu filho e duas malas. Eu tinha zerado a vida”, conta. Durante a pandemia, atuando em plantões, se deparou com situações que ampliaram ainda mais sua percepção sobre a realidade feminina. “Vi grávidas morrerem, vi grávida esfaqueada pelo companheiro, vi grávida fugir da sala de pré-parto para ir atrás do marido. Foi ali que percebi o quanto, em muitos contextos, ser mulher ainda significa enfrentar desvantagens profundas.”
Foi nesse cenário que decidiu mudar completamente o rumo da sua carreira. Sem a possibilidade de seguir uma residência tradicional naquele momento, encontrou outros caminhos e seguiu na direção que já fazia sentido internamente. “Meu mentor chegou a me dizer que via em mim uma missão”, lembra. A escolha pela psiquiatria surgiu como consequência natural de tudo o que viveu. “Sentir e sofrer as dores de ser mulher me levou até aqui.” Hoje, sua atuação é voltada para a saúde mental da mulher, unindo ciência, escuta e um lugar de fala que gera identificação real com suas pacientes.
Na prática clínica, o cuidado começa de um lugar diferente. Como explica a própria Danielle, um tratamento eficaz não se limita à identificação de sintomas, mas passa pela compreensão da história de cada mulher. “Um tratamento personalizado começa quando a paciente deixa de ser um conjunto de sintomas e passa a ser compreendida como uma história”, afirma. Isso envolve considerar o contexto de vida, os padrões emocionais, as relações, as fases hormonais e o significado daquele sofrimento. Sua própria vivência também contribui para essa escuta mais sensível. “Por ter vivido depressão e ter TDAH, consigo entender o que muitas vezes elas não conseguem colocar em palavras.” Quando essa conexão acontece, o impacto é direto no processo terapêutico. “Quando a paciente percebe que aquele sofrimento invisível foi visto, ela sente que finalmente encontrou o lugar que buscava.”
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| Foto: Divulgação |
Na rotina do consultório, um padrão se repete com frequência, como observa a médica. Muitas mulheres chegam sobrecarregadas, mas sem perceber exatamente o quanto estão. Cuidam de tudo e de todos, assumem múltiplas funções e acabam se deixando por último. “Muitas mulheres nem percebem que estão sobrecarregadas. Acham que é o normal, até adoecerem”, pontua. Esse comportamento costuma vir acompanhado de um alto nível de autoexigência e de uma dificuldade em se priorizar. “São mulheres que cuidam de tudo, mas não aprenderam a se incluir nesse cuidado. Sentem culpa quando descansam.”
Nem sempre esse sofrimento é visível. Muitas continuam funcionando, mantendo a rotina, cumprindo responsabilidades, mas já não se sentem presentes na própria vida. “Muitas continuam funcionando, mas já não sentem, não descansam e não se reconhecem mais”, explica. Esse é o chamado esgotamento silencioso, que se manifesta por sinais como irritabilidade constante, sensação de vazio, perda de prazer e um cansaço que não melhora com o descanso. “Ela não colapsa, mas também não está bem.”
Quando a mente já não consegue sustentar tudo, o corpo começa a dar sinais. “O corpo fala antes da consciência permitir”, afirma. Insônia, dores musculares, alterações no apetite, tendência ao isolamento e cansaço persistente passam a fazer parte da rotina de muitas mulheres. “É como se o corpo dissesse o que a mente ainda está tentando suportar.” Sem mudanças no estilo de vida e sem acompanhamento adequado, há uma tendência de evolução para quadros mais graves.
A maternidade também aparece como um ponto sensível dentro da saúde emocional feminina. Como destaca Danielle, apesar de frequentemente romantizada, essa fase pode trazer uma sobrecarga intensa. “Muitas mulheres enfrentam culpa, solidão e uma perda momentânea de si mesmas”, explica. Existe uma ideia de que esse sofrimento faz parte, o que acaba silenciando o pedido de ajuda. Em alguns casos, esse cenário pode evoluir para quadros mais graves, como depressão pós-parto ou psicose puerperal, especialmente em mulheres com histórico emocional.
Outro aspecto que vem ganhando espaço na sua prática é o impacto emocional ao longo da vida, especialmente com o avanço da idade. Danielle observa que muitas mulheres, ao chegarem em fases mais maduras, enfrentam uma sensação de perda de função e propósito, principalmente quando suas rotinas e papéis mudam. Sem a construção de um novo sentido, esse processo pode gerar crises emocionais importantes. Para ela, é fundamental desenvolver um novo projeto de vida, baseado não apenas em produtividade, mas em bem-estar e significado.
O acolhimento é uma das bases do seu trabalho e influencia diretamente na evolução das pacientes. “Quando a paciente se sente segura, ela acessa conteúdos mais profundos. Isso muda completamente o tratamento”, destaca. Embora sua prática seja baseada em evidências científicas, Danielle também reconhece o papel da fé como suporte emocional. “A fé não substitui o tratamento, mas sustenta o processo. Ela traz sentido e esperança.” Para ela, ciência e fé não se opõem, mas se complementam dentro de um cuidado mais amplo. Ao mesmo tempo, reforça a importância da participação ativa da paciente. “A medicação apaga o fogo, mas a reconstrução vem da psicoterapia e da consciência sobre a própria história.”
A transformação, segundo Danielle, acontece quando a mulher passa a compreender sua própria trajetória e se posiciona de forma diferente diante dela. “A mudança real acontece quando a paciente entende sua história e se responsabiliza pela própria mudança, sem culpa, mas com consciência”, afirma. E, muitas vezes, esse processo começa em gestos simples, mas carregados de significado. “Às vezes eu entrego um batom e digo: quando se sentir cabisbaixa, coloca e lembra que você tem valor.”
Para mulheres que ainda não buscaram ajuda, ela deixa um direcionamento direto. “O primeiro passo não é resolver tudo. É reconhecer que do jeito que está não está bem”, orienta. Segundo ela, muitas demoram a procurar apoio porque se acostumaram a sustentar tudo sozinhas e só pedem ajuda quando já estão no limite.
Antes de qualquer diagnóstico, existe uma mulher tentando dar conta de tudo em silêncio. E, muitas vezes, tudo o que ela precisa não é de mais força, mas de um lugar seguro onde possa, finalmente, ser vista, ouvida e acolhida.
Instagram: @danialvescmelo