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Passivos ocultos e saúde mental no trabalho: advogada trabalhista Luana Albuquerk explica

19 de Março de 2026

Por que empresas precisam repensar a gestão das relações de trabalho

A advogada trabalhista Luana Albuquerk, mestre em Direito pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), tem acompanhado de perto uma transformação silenciosa nas relações de trabalho dentro das empresas. Em um cenário corporativo marcado por pressão por resultados, hiperconectividade e rotinas intensas, cresce também o número de conflitos trabalhistas relacionados não apenas ao cumprimento formal da legislação, mas à forma como o ambiente organizacional é estruturado no dia a dia.

Luana Albuquerk
Foto: Divulgação

Com atuação tanto no contencioso quanto na consultoria estratégica para empresas, a especialista observa que muitos processos trabalhistas não surgem de um fato isolado, mas de práticas que foram sendo naturalizadas ao longo do tempo dentro da própria rotina corporativa.

Segundo ela, é nesse contexto que surgem os chamados passivos ocultos trabalhistas, riscos jurídicos que existem dentro da empresa, mas que ainda não foram identificados ou tratados de forma adequada.

“Na maioria das vezes, o passivo trabalhista não nasce no processo judicial. Ele nasce dentro da rotina da própria empresa, em práticas organizacionais que foram sendo acumuladas ao longo do tempo.”

Entre essas práticas estão jornadas mal controladas, ausência de políticas internas bem estruturadas, falhas na gestão de equipes e ambientes profissionais marcados por pressão excessiva por desempenho.

Quando esses fatores se acumulam sem uma gestão adequada, o conflito costuma surgir já na forma de uma ação trabalhista estruturada.

Outro fenômeno que tem chamado atenção no ambiente corporativo é o aumento significativo de ações trabalhistas relacionadas a doenças psicossociais, como burnout, ansiedade e depressão associadas ao ambiente de trabalho.

De acordo com Luana Albuquerk, esse movimento reflete um cenário profissional cada vez mais marcado por exaustão emocional, metas elevadas e pela expectativa constante de disponibilidade.

A hiperconectividade proporcionada pelas tecnologias digitais também contribui para esse cenário. A comunicação permanente e a dificuldade de estabelecer limites entre tempo de trabalho e tempo de descanso acabam impactando diretamente o bem-estar dos trabalhadores.

Dentro das organizações, esses riscos costumam se manifestar por meio de práticas como metas excessivamente agressivas, cobrança permanente por desempenho, ambientes de trabalho hostis, falta de reconhecimento profissional e ausência de canais seguros para comunicação de conflitos.

Além das consequências humanas, esse tipo de ambiente também pode gerar impactos jurídicos relevantes, como afastamentos por doença ocupacional, indenizações por danos morais e responsabilização da empresa por falhas na gestão do ambiente organizacional.

A mudança na forma como o Direito do Trabalho enxerga essas questões também está refletida na evolução das normas regulamentadoras, especialmente na Norma Regulamentadora nº 1, que trata do gerenciamento de riscos ocupacionais.

Foto: Divulgação
 

A norma amplia a lógica de gestão de riscos dentro das empresas e exige que as organizações identifiquem não apenas riscos físicos, mas também fatores ligados à organização do trabalho que possam impactar a saúde mental dos trabalhadores.

Isso significa que aspectos emocionais e organizacionais passam a integrar a lógica de gestão de riscos ocupacionais e governança corporativa.

Outro ponto relevante destacado pela especialista é que muitas situações consideradas comuns dentro das empresas podem, na prática, representar riscos jurídicos relevantes.

Entre elas estão metas excessivamente agressivas, cobranças constantes fora do horário de trabalho, exposição pública de erros de colaboradores, acúmulo de funções sem formalização e uma comunicação interna marcada por pressão e constrangimento.

A má condução de conflitos interpessoais dentro das equipes também tem gerado um número crescente de disputas judiciais.

Embora divergências façam parte de qualquer ambiente profissional, quando não são mediadas de forma adequada podem evoluir para situações de desgaste emocional e até episódios caracterizados como assédio moral.

Para Luana Albuquerk, a cultura organizacional exerce um papel decisivo na forma como as relações de trabalho se desenvolvem dentro das empresas.

Ambientes baseados em comunicação transparente, respeito nas relações profissionais e lideranças preparadas tendem a reduzir significativamente o surgimento de conflitos trabalhistas.

Por outro lado, culturas corporativas baseadas exclusivamente em pressão por resultados, ausência de diálogo ou tolerância a práticas abusivas podem criar um ambiente propício ao desgaste emocional dos trabalhadores.

Muitas empresas acreditam que possuir contratos, regulamentos internos ou códigos de conduta já é suficiente para demonstrar conformidade com a legislação trabalhista.

No entanto, a prevenção efetiva depende da forma como essas normas são aplicadas na prática.

Quando essas políticas existem apenas no papel, sem treinamento de lideranças ou mecanismos reais de acompanhamento, elas tendem a ter pouca efetividade.

Nesse cenário ganha destaque o chamado compliance trabalhista, que envolve revisão de práticas internas, implementação de políticas claras, capacitação de lideranças e monitoramento contínuo das rotinas organizacionais.

A atuação jurídica também vem passando por uma transformação importante. O jurídico deixa de atuar apenas quando surge um processo e passa a contribuir para a construção de ambientes organizacionais mais seguros.

Essa atuação preventiva permite identificar fragilidades nas rotinas corporativas antes que elas se transformem em litígios.

Para muitas empresas, especialmente pequenas e médias organizações, a gestão preventiva ainda é vista como um custo adicional.

No entanto, o investimento em prevenção costuma ser significativamente menor do que o impacto financeiro de um processo trabalhista.

“Prevenção trabalhista não é gasto. É gestão inteligente de risco. Empresas que tratam a gestão de risco apenas quando surge um processo judicial já estão atrasadas. Hoje a prevenção faz parte da própria governança empresarial.”

A advogada Luana Albuquerk compartilha análises sobre direito do trabalho, gestão preventiva e governança nas relações profissionais em seu Instagram @adv.luanaalbuquerk.

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