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Corações na Era Digital: especialista analisa como a IA está redesenhando a ecocardiografia

10 de Março de 2023

Por Wanderley Junior

São Paulo, Brasil — O som ritmado de um coração, projetado em uma tela de ultrassom, pode em breve ser interpretado por uma inteligência artificial. O que há poucos anos parecia um conceito futurista tornou-se parte do presente. Hoje, a ecocardiografia — um dos pilares do diagnóstico cardiovascular — entra na era da automação inteligente, com dezenas de algoritmos já aprovados pela FDA e discutidos em congressos da American Society of Echocardiography (ASE).

Entre os médicos que acompanham essa transição está Alexandre Klita, cardiologista com título de especialista em Ecocardiografia pelo Departamento de Imagem Cardiovascular da Sociedade Brasileira de Cardiologia (DIC/SBC). Coordenador do Centro de Diagnóstico Cardiovascular da Unimed Chapecó desde 2020, Klita vive diariamente o ponto de encontro entre ciência, gestão e tecnologia.

Dr. Alexandre Klita
Foto: Divulgação

“A IA tem o potencial de ser o maior avanço na ecocardiografia desde o Doppler”, diz ele. “Mas não é um simples botão que se aperta. Exige adaptação, treinamento e uma nova forma de pensar o cuidado.”

Uma promessa que chegou cedo

A ecocardiografia é, ao mesmo tempo, uma das ferramentas mais versáteis e mais humanas da cardiologia. Exige do operador sensibilidade, paciência e domínio técnico — e essa dependência sempre foi sua força e sua limitação.

A Inteligência Artificial surge, segundo Klita, como uma ponte entre precisão e acessibilidade. “Ela padroniza, acelera e democratiza”, afirma. Deep learning, uma técnica de aprendizado profundo, já permite que softwares calculem volumes ventriculares, fração de ejeção e parâmetros cardíacos complexos em segundos, tarefas que antes tomavam minutos preciosos de atenção manual.

“Hoje, algoritmos traçam contornos do ventrículo esquerdo e geram relatórios em menos de dois minutos, com margens de erro inferiores às humanas”, explica. Mas ele adverte: “A IA não substitui o raciocínio clínico. Um sistema pode reconhecer padrões, mas não entende contextos. O médico continua sendo o capitão do navio — a IA é apenas um instrumento de navegação.”

Democratização à beira do leito

Durante a pandemia de COVID-19, o POCUS (Point-of-Care Ultrasound) — ultrassonografia portátil feita à beira do leito — transformou-se em ferramenta essencial em unidades de emergência. Agora, com o auxílio da IA, profissionais sem formação específica em cardiologia podem realizar exames de qualidade diagnóstica sob orientação em tempo real.

Em um estudo apresentado na ASE 2023, enfermeiros sem experiência prévia conseguiram adquirir imagens de alta qualidade após poucas horas de treinamento com sistemas inteligentes. “O impacto disso é enorme”, diz Klita. “Em regiões do Brasil onde não há ecocardiografistas, a IA pode garantir que pacientes tenham acesso a diagnósticos precoces e seguros.”

Ele vê nisso uma forma de reduzir desigualdades regionais. “A tecnologia permite que hospitais menores façam exames sob supervisão remota e que centros de referência validem resultados à distância. É medicina de precisão com alcance social.”

O novo papel do médico-gestor

Para Klita, a integração da IA à rotina clínica é menos uma questão técnica e mais um desafio de gestão. “Não se trata de comprar software”, afirma. “É preciso redesenhar fluxos, treinar equipes e criar protocolos de validação. A IA exige governança — de pessoas, processos e resultados.”

Durante sua gestão, o cardiologista implantou protocolos de qualidade, liderou treinamentos, modernizou sistemas digitais e introduziu auditorias internas. O trabalho lembra mais o de um executivo do que o de um clínico tradicional.

“Em última instância, a IA só gera valor quando está alinhada à boa gestão”, diz. “De nada adianta um software de última geração se não houver cultura de qualidade, padronização e profissionais capacitados para usá-lo.”

As novas fronteiras do risco

Mesmo entre entusiastas, há cautela. A IA médica ainda opera como uma caixa-preta, produzindo respostas sem explicar seu raciocínio. Tudo ainda é muito novo. Isso levanta dilemas: quem responde por um erro diagnóstico? O desenvolvedor, o hospital ou o médico?

Além das questões legais, há um risco psicológico — o automation bias, a tendência humana de aceitar automaticamente as conclusões da máquina. “A IA deve sugerir, nunca ditar”, alerta Klita. “O médico precisa formar sua opinião antes de consultar o algoritmo.”

Outro ponto crítico é a validação contínua dos modelos. Algoritmos treinados em bancos de dados norte-americanos podem falhar em populações latino-americanas, com variações anatômicas e epidemiológicas. Sociedades como a ASE vêm insistindo em diversidade de dados, supervisão humana e protocolos internacionais de validação.

Ética, formação e o futuro

Klita acredita que o futuro da ecocardiografia será híbrido e colaborativo. “A máquina faz o que é repetitivo e mensurável; o humano faz o que é interpretativo e empático”, diz. “O futuro do diagnóstico é uma parceria.”

Essa transformação, porém, exige nova formação médica. “Formar ecocardiografistas, hoje, significa ensinar a interpretar algoritmos, entender limitações e usar a IA como ferramenta crítica — não como atalho.” Ele defende que universidades incorporem disciplinas de inteligência artificial, gestão e análise de dados clínicos nos currículos.

“Não basta operar o equipamento”, conclui. “É preciso compreender o sistema.”

Um novo coração para a cardiologia

A revolução digital não substitui o médico — apenas redefine seu papel. Para Klita, o profissional moderno é mais do que um especialista em diagnósticos: é um gestor de tecnologia, informação e pessoas.

“O avanço da IA não ameaça a ecocardiografia”, diz. “Ele expande suas fronteiras. Nos livra do trabalho mecânico e nos devolve o que há de mais humano na medicina: o raciocínio clínico e o cuidado personalizado.”

Entre a máquina que calcula e o médico que decide, nasce uma nova ecocardiografia — mais precisa, mais acessível e, paradoxalmente, mais humana.

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