Estudo mostra que mais da metade dos brasileiros compartilha segredos, sentimentos e fotos com chatbots
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Há algo de novo no confessionário contemporâneo. Não é mais o padre, o analista ou o melhor amigo. É uma tela que responde em segundos, não se cansa, não julga e nunca conta o que ouviu. Segundo pesquisa da Freud Academy, 58% dos brasileiros afirmam já ter contado segredos íntimos a uma inteligência artificial, não apenas preferências banais, mas aquilo que normalmente se guarda para poucos.
Os números ajudam a dimensionar o fenômeno. Do total de entrevistados, 58% compartilham com chatbots gostos e preferências pessoais, como filmes, músicas e hábitos. 54% discutem sentimentos e emoções. Metade, 50%, envia fotos pessoais ou de pessoas próximas. Em todos os casos, trata-se de conteúdo que, em qualquer outra circunstância, exigiria confiança construída ao longo de anos.
O dado que torna o quadro mais complexo é o que vem logo depois. 45% dos brasileiros dizem se preocupar com a segurança e a privacidade das informações que entregam a agentes de inteligência artificial, e apenas 36% confiam na confidencialidade desses dados. Ou seja, a maioria desconfia, e ainda assim se abre.
Para a psicanálise, o fenômeno não é acidental. Ele responde a uma demanda antiga do sujeito: ser ouvido sem ser interrompido, sem ser corrigido, sem ser devolvido à sua própria responsabilidade.
De acordo com o psicanalista Felipe Chaves, coordenador regional da American Society of Freudian Psychoanalysis da Freud Academy para o Brasil, "a inteligência artificial ocupa hoje um lugar que antes era do amigo, do confessor ou do analista. Ela oferece ao sujeito uma escuta sem atrito, sem cansaço, sem julgamento. E é justamente essa ausência de fricção que a torna tão atraente. O problema é que aquilo que não oferece resistência não produz elaboração. O sujeito confessa, mas não se transforma. Ele se alivia, mas não se escuta. A fala vira descarga, não vira trabalho psíquico".
A questão, segundo ele, é que a IA devolve ao usuário apenas aquilo que ele próprio projetou. Não há alteridade real, não há um outro com desejo, com limites, com inconsciente.
"Quando falamos com outro ser humano, somos confrontados com algo que nos escapa. O outro não responde o que queremos. Ele falha, se irrita, se distrai, interpreta errado. É nesse desencontro que o sujeito se constitui. Com a IA, esse desencontro desaparece. Ela responde exatamente o que esperamos. E o que parece acolhimento é, no fundo, uma forma sofisticada de espelhamento narcísico", avalia Felipe Chaves.
O fenômeno ganha contornos ainda mais nítidos quando se observa que 54% dos brasileiros já utilizam algum tipo de ferramenta de inteligência artificial, índice acima da média global. A familiaridade crescente com a tecnologia reduziu o estranhamento inicial e transformou o chatbot em companhia cotidiana.
É nesse ponto que a pesquisa da Freud Academy encontra seu achado mais perturbador. A entrega íntima acontece apesar do medo. As pessoas sabem que seus dados podem ser usados, armazenados, analisados, e ainda assim contam.
"O sujeito prefere se expor a um sistema do que permanecer em silêncio. Ele escolhe a escuta artificial porque a escuta humana se tornou cara, escassa ou cansativa. A questão que a psicanálise coloca não é se a IA é boa ou ruim, mas o que essa escolha diz sobre o nosso tempo", analisa o psicanalista.
A pesquisa que originou os dados desta reportagem foi conduzida pela escola de psicanálise Freud Academy, instituição dedicada ao estudo da psique, do comportamento humano e à formação de psicanalistas dentro da tradição clássica. O levantamento integra uma linha de investigação que a instituição mantém sobre os efeitos das novas tecnologias na vida psíquica, com foco em fenômenos que a clínica contemporânea tem encontrado com frequência crescente: a busca por escuta sem julgamento, a dificuldade de sustentar vínculos e o deslocamento do sofrimento para formas cada vez mais solitárias de elaboração.
A psicanálise sempre sustentou que o sofrimento psíquico não se resolve pelo alívio imediato. Ele se elabora na relação com o outro, com suas faltas e seus silêncios. É justamente isso que a escuta artificial não pode oferecer.
O confessionário digital segue aberto, vinte e quatro horas por dia. A pergunta que fica é o que fazemos com aquilo que confessamos a uma tela, e o que deixamos de descobrir quando ninguém, do outro lado, tem um inconsciente para nos devolver o inesperado.