Cultura - Música

Paco de Lucía e a ponte entre o flamenco e a música brasileira

27 de Agosto de 2026

Apresentação única do Festival Internacional de Música e Dança Flamenca – "Diálogos Flamencos", em São Paulo, celebra o legado de um dos maiores nomes da música espanhola e sua influência sobre artistas brasileiros de diferentes gerações e estilos

A música de Paco de Lucía ultrapassou as fronteiras do flamenco e encontrou no Brasil um terreno fértil para encontros e novas possibilidades musicais. Considerado um dos grandes responsáveis pela renovação do gênero e pela projeção internacional do violão flamenco, o músico espanhol deixou marcas que podem ser percebidas em diferentes vertentes da música brasileira, da MPB ao violão instrumental, passando pela música nordestina e pelo choro.

É essa capacidade de conectar culturas e transformar referências em novas linguagens que estará no centro do Festival Internacional de Música e Dança Flamenca – "Diálogos Flamencos", que reunirá artistas brasileiros e espanhóis em uma apresentação única em São Paulo, em homenagem ao legado de Paco de Lucía. Mais do que revisitar a obra do mestre espanhol, o espetáculo propõe olhar para as pontes que ele ajudou a construir entre o flamenco e outras tradições musicais.

No Brasil, uma das conexões mais emblemáticas está na trajetória de Djavan. A relação entre os dois artistas ficou registrada de maneira definitiva em “Oceano”, lançada por Djavan em 1989. A canção nasceu justamente do desejo do brasileiro de explorar uma sonoridade flamenca e ganhou um solo histórico de Paco de Lucía. O próprio Djavan, após a morte do violonista, definiu Paco como o instrumentista mais brilhante que havia conhecido, destacando sua combinação de técnica, velocidade, expressividade e sentimento.

A parceria não foi um encontro isolado. Paco de Lucía demonstrava admiração pela música brasileira e, ao longo de sua carreira, estabeleceu conexões com músicos do país, que ajudaram a ampliar a própria linguagem do flamenco, mostrando que a influência musical não ocorreu em uma única direção.

A influência também pode ser percebida no trabalho de Fagner, cuja produção incorporou elementos da música espanhola e do flamenco à tradição nordestina. Essa aproximação evidencia uma afinidade particularmente forte: assim como o flamenco carrega a história, a intensidade e a identidade cultural da Andaluzia, a música nordestina brasileira também nasce de uma combinação de ritmos, tradições e influências que ganhou novas formas nas mãos de seus intérpretes.

No universo do violão, a conexão se torna ainda mais evidente. Além da Rafael Rabello, Yamandu Costa, um dos principais nomes da música instrumental brasileira contemporânea, encontrou em Paco de Lucía uma referência de virtuosismo e liberdade musical. O encontro entre os dois aconteceu em Porto Alegre, em 2013, quando Paco assistiu a uma apresentação do violonista gaúcho e o aplaudiu da plateia. A cena sintetiza a dimensão do diálogo: um mestre espanhol diante de um músico brasileiro que, a partir de outra tradição de violão, a do sete cordas e da música brasileira, também expandiu os limites técnicos e expressivos do instrumento.

Para Toquinho, a admiração por Paco também ganhou forma artística. No álbum Aquarela, de 1983, o brasileiro incluiu a composição “Amigo Paco de Lucia”, uma homenagem direta ao violonista espanhol. O título da faixa é, por si só, um registro da proximidade e do reconhecimento entre dois músicos que tinham no violão um dos principais instrumentos de expressão.

Até hoje a influência continua sendo reinterpretada por novas gerações. Hamilton de Holanda, referência do bandolim e da música instrumental brasileira, revisitou “Oceano” em seu projeto dedicado à obra de Djavan. Na nova leitura, seu arranjo dialoga diretamente com o solo original de Paco de Lucía, mostrando como uma contribuição feita pelo espanhol à MPB continua reverberando e sendo transformada por outros instrumentistas.

Essa trajetória ajuda a compreender por que a influência de Paco de Lucía sobre a música brasileira vai muito além da adoção de determinadas escalas, ritmos ou técnicas de violão. Seu principal legado está talvez na ideia de que tradição e inovação não são conceitos opostos. Paco partiu das raízes profundas do flamenco para incorporar jazz, música latino-americana e outras referências, ampliando a linguagem do gênero sem perder sua identidade.

É justamente nesse território de encontros que o Festival Internacional de Música e Dança Flamenca – "Diálogos Flamencos" se insere. Ao colocar lado a lado artistas brasileiros e espanhóis, o festival mostra que o flamenco não é uma manifestação musical isolada, mas uma linguagem capaz de conversar com o choro, a MPB, a música nordestina, o violão brasileiro e a música instrumental.

A apresentação única em São Paulo será uma oportunidade para revisitar não apenas a obra de Paco de Lucía, mas também a dimensão de seu legado no Brasil, construído por encontros entre músicos, instrumentos, ritmos e culturas diferentes. Afinal, se Paco transformou o flamenco ao abrir suas fronteiras para o mundo, sua música também encontrou no Brasil artistas dispostos a fazer o mesmo: absorver uma tradição, reinventá-la e devolvê-la ao público com uma identidade própria.

Diálogos Flamencos celebra não apenas um mestre do flamenco, mas uma das ideias mais poderosas deixadas por sua trajetória: a música cresce quando atravessa fronteiras.

SERVIÇO

Festival Internacional de Música e Dança Flamenca – “Diálogos Flamencos”

Data: 28 de novembro de 2026

Horário: 20h

Local: Teatro Cultura Artística.

Endereço: Rua Nestor Pestana, 196 - Consolação, São Paulo (SP)

Cidade: São Paulo (SP)

Vendas: Link.

Realização: Solosp Produções Artísticas

Apoio institucional: Embaixada da Espanha no Brasil.

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