Criado por Michelle Bottrel e Sarah Mendonça, o Instituto já formou mais de 5 mil profissionais e propõe um olhar que vai além do comportamento aparente para compreender o desenvolvimento da criança e orientar famílias com base em conhecimento científico
![]() |
| Foto: Divulgação |
Birras, impulsividade, dificuldade para cumprir regras, explosões emocionais e resistência aos limites ainda são comportamentos frequentemente interpretados pelos adultos apenas como desobediência, manipulação ou falta de disciplina. Mas o que acontece quando, antes de tentar fazer uma criança simplesmente parar, pais e profissionais procuram compreender o que aquele comportamento pode estar comunicando?
É a partir dessa mudança de perspectiva que o Instituto Eduque Bem, criado por Michelle Bottrel e Sarah Mendonça, desenvolve seu trabalho na formação de profissionais em neuroeducação parental. A proposta aproxima conhecimentos sobre neurociência, desenvolvimento infantil, comportamento e relações familiares para transformar a maneira como adultos compreendem e conduzem os desafios da infância.
A ideia nasceu de uma necessidade percebida por Michelle em sua própria atuação. Diante do número crescente de famílias que buscavam orientação, ela entendeu que o atendimento individual tinha um limite de alcance. Foi então que procurou Sarah, que já desenvolvia um trabalho voltado à formação de profissionais, e apresentou uma possibilidade: em vez de tentar chegar a cada família individualmente, formar pessoas preparadas para multiplicar esse conhecimento.
As experiências das duas convergiram tanto na compreensão sobre desenvolvimento infantil quanto na maneira como acreditavam que as famílias deveriam ser orientadas. Cada uma reuniu mais de uma década de formação e experiência em sua trajetória, dando origem a um projeto construído justamente sobre a ideia de multiplicação do conhecimento.
Sarah costuma dizer que o encontro das duas “estava escrito nas estrelas”. O que começou dessa conexão profissional ganhou proporções maiores. Atualmente, o Instituto Eduque Bem já contabiliza mais de 5 mil profissionais formados, além da realização de imersões presenciais e online, eventos internacionais e novas iniciativas voltadas à produção de conhecimento.
“Quando formamos um profissional, sabemos que o impacto não termina nele. Esse conhecimento chega às famílias que ele atende, às crianças que essas famílias educam e às comunidades em que estão inseridas”, explica Michelle.
O que existe por trás de um comportamento?
Um dos princípios defendidos pelo Instituto é que o comportamento infantil não deve ser observado isoladamente. Uma criança ainda está desenvolvendo capacidades relacionadas à atenção, memória de trabalho, flexibilidade cognitiva, controle dos impulsos e regulação emocional. Isso significa que conhecer uma regra nem sempre representa conseguir colocá-la em prática de maneira consistente.
Uma criança pode, por exemplo, saber que não deve bater e ainda ter dificuldade para controlar uma reação diante de uma frustração intensa. Para Michelle e Sarah, compreender esse processo não significa retirar limites ou responsabilidades, mas estabelecer expectativas compatíveis com a fase de desenvolvimento e ajudar a criança a construir gradualmente as habilidades necessárias para responder de outra maneira.
Essa compreensão modifica inclusive a pergunta feita pelo adulto. Em vez de pensar somente “como faço essa criança parar?”, surge uma questão mais profunda: “O que esse comportamento está mostrando e qual habilidade essa criança ainda precisa desenvolver?”
A diferença pode parecer pequena, mas altera a maneira como pais e profissionais conduzem a situação. O foco deixa de estar exclusivamente na interrupção imediata de um comportamento e passa a incluir aquilo que precisa ser ensinado para que a criança consiga responder melhor no futuro.
Compreender não significa permitir tudo
Outro equívoco recorrente apontado pelas especialistas é tratar acolhimento e disciplina como conceitos opostos. Para o Instituto Eduque Bem, uma criança precisa simultaneamente de vínculo, segurança e limites.
É possível reconhecer uma emoção sem autorizar qualquer comportamento decorrente dela. Diante de uma criança com raiva, por exemplo, o adulto pode validar o que ela sente e, ao mesmo tempo, deixar claro que determinada atitude, como agredir outra pessoa, não será permitida.
Essa distinção é importante porque evita dois extremos. De um lado, interpretar toda dificuldade como desafio intencional à autoridade do adulto. Do outro, imaginar que compreender as razões de um comportamento significa abrir mão da firmeza.
“Disciplina saudável não é ausência de firmeza. É ensinar comportamentos e habilidades dentro de uma relação que oferece segurança, previsibilidade e orientação”, destaca Michelle.
Por isso, a observação ganha espaço antes da intervenção. Comportamentos muito intensos, frequentes, persistentes ou associados a determinados contextos podem trazer informações relevantes. Observar o que acontece antes, como os adultos reagem, quais consequências surgem depois e quais habilidades a criança possui ajuda a construir uma resposta mais adequada.
Da teoria para a realidade das famílias
A quantidade de informações disponíveis sobre parentalidade aumentou consideravelmente nos últimos anos. Nas redes sociais, famílias encontram diariamente métodos, opiniões, listas de estratégias e fórmulas que prometem solucionar diferentes desafios da infância.
Para Michelle e Sarah, justamente aí está uma das dificuldades enfrentadas pelos profissionais que trabalham com crianças e famílias: separar tendência de evidência e transformar conhecimento teórico em orientação aplicável à vida real.
Saber conceitos sobre desenvolvimento, emoções e comportamento é importante, mas o profissional precisa conseguir responder quando uma mãe ou um pai pergunta o que fazer quando determinada situação acontecer novamente no dia seguinte.
A prática baseada em evidências, segundo a proposta do Instituto, procura integrar conhecimento científico, experiência profissional e as características daquela criança e daquela família. Isso permite acompanhar os resultados e modificar a intervenção quando necessário, em vez de aplicar soluções universais a situações que podem ter causas completamente diferentes.
“Quando trabalhamos com desenvolvimento infantil, boas intenções são importantes, mas não são suficientes. Precisamos também de método”, ressalta Michelle.
Formar profissionais capazes de pensar, e não apenas repetir estratégias
Essa necessidade está diretamente relacionada à metodologia desenvolvida pelo Instituto Eduque Bem para a formação de neuroeducadores parentais.
A formação possui uma base voltada à neurociência aplicada ao desenvolvimento e ao comportamento infantil e integra conhecimentos relacionados à ciência da felicidade, teoria do apego, educação parental e disciplina consciente.
A intenção, entretanto, não é entregar ao profissional uma lista pronta de respostas para cada comportamento. O objetivo é desenvolver raciocínio para que ele consiga analisar cada situação, levantar hipóteses, compreender a criança dentro de seu contexto e construir orientações adequadas à realidade daquela família.
Uma queixa aparentemente simples, como “meu filho não me obedece”, pode envolver diversos elementos. Desenvolvimento, dinâmica familiar, ambiente, habilidades de autorregulação e padrões de interação são alguns dos aspectos que podem precisar ser investigados antes de uma orientação.
É justamente nesse ponto que o Instituto busca se diferenciar de abordagens baseadas exclusivamente em fórmulas. O profissional precisa compreender por que determinada estratégia pode ser indicada, e não apenas saber reproduzi-la.
Esse raciocínio também traz maior segurança para quem orienta as famílias. Quando os próprios pais passam a entender melhor aquilo que está por trás do comportamento, a relação pode deixar de ser marcada exclusivamente pelo confronto e ganhar espaço para ensino, condução e desenvolvimento de habilidades.
Educação parental também pode prevenir conflitos
Muitos conflitos familiares não surgem de um único episódio. Eles se constroem por meio de ciclos que se repetem: a criança reage, o adulto responde de determinada maneira, a tensão aumenta e, diante de uma situação semelhante, o padrão se estabelece novamente.
A educação parental pode ajudar os adultos a reconhecer esses ciclos antes que se tornem crônicos, rever expectativas e estabelecer limites de maneira mais previsível.
Ao mesmo tempo, uma criança que encontra espaço para reconhecer emoções sem perder referências claras de comportamento tem oportunidades de desenvolver competências que ultrapassam a infância, como comunicação, resolução de problemas, habilidades sociais e autorregulação.
Essa perspectiva também ajuda a compreender por que punições e recompensas, embora possam alterar determinados comportamentos, não resumem o processo educativo.
Para Michelle e Sarah, existe uma pergunta que deveria acompanhar esse debate: “O que queremos que essa criança seja capaz de fazer quando nenhum adulto estiver olhando?”
A questão desloca o objetivo da simples obediência imediata para a construção de habilidades internas. Autocontrole, responsabilidade, empatia, tomada de decisão e capacidade de resolver problemas não são desenvolvidos apenas pela expectativa de receber uma recompensa ou evitar uma punição.
Educar, nessa perspectiva, significa também participar da construção dos recursos que a criança levará consigo para a vida adulta.
A infância digital será um dos grandes desafios
O Instituto Eduque Bem também acompanha mudanças que devem influenciar profundamente a educação parental nos próximos anos. Entre elas está uma aproximação cada vez maior entre neurociência, psicologia do desenvolvimento, educação e análise do comportamento.
Outra transformação está relacionada ao abandono gradual de fórmulas universais. Quanto mais conhecimento se produz sobre desenvolvimento infantil, mais evidente se torna a necessidade de considerar contexto, características individuais e ambiente.
Nesse cenário, Michelle e Sarah apontam a infância digital como uma das discussões que ganharão ainda mais relevância.
Crianças estão crescendo em contato com tecnologias e estímulos digitais em uma intensidade sem precedentes históricos. Entender de que maneira esse ambiente se relaciona com atenção, sono, aprendizagem, autorregulação, comportamento e relações sociais será uma questão importante não apenas para as famílias, mas também para educadores e profissionais que trabalham com desenvolvimento infantil.
A discussão, portanto, tende a ir além de simplesmente determinar quanto tempo uma criança pode permanecer diante de uma tela. Será necessário compreender como diferentes experiências digitais interagem com o desenvolvimento e como os adultos podem estabelecer relações mais conscientes com a tecnologia dentro das famílias.
Do ensino à produção de conhecimento
O crescimento do Instituto também abriu espaço para uma nova etapa. Além das formações e iniciativas educacionais, Michelle e Sarah pretendem ampliar a produção de conhecimento relacionada à infância.
Entre os projetos está o NeuroLab IEB, frente voltada à pesquisa sobre desenvolvimento, comportamento e os desafios enfrentados pelas crianças em uma sociedade em constante transformação.
A intenção é aproximar ainda mais conhecimento científico e prática profissional, permitindo que aquilo que é estudado possa contribuir para as decisões tomadas por quem está diariamente diante das famílias.
Ao mesmo tempo, o Instituto pretende continuar ampliando seus projetos de formação e iniciativas relacionadas à neurociência aplicada ao desenvolvimento infantil. A missão não é apenas ensinar estratégias, mas preparar profissionais capazes de interpretar situações complexas e gerar impacto em famílias, escolas e comunidades.
Um conhecimento que se multiplica
Depois de mais de 5 mil profissionais formados, a dimensão alcançada pelo Instituto retoma justamente a pergunta que esteve em sua origem: como fazer esse conhecimento chegar a mais famílias?
A resposta encontrada por Michelle Bottrel e Sarah Mendonça foi investir na formação daqueles que estarão diretamente em contato com pais e crianças. Para elas, quem decide trabalhar profissionalmente com famílias assume uma responsabilidade que exige estudo contínuo. Conhecer frases sobre parentalidade ou reproduzir técnicas isoladas não substitui uma compreensão consistente sobre desenvolvimento infantil, comportamento e neurociência, nem a capacidade de transformar esse conhecimento em orientações possíveis dentro da realidade de cada família.
No centro dessa proposta está uma ideia simples, mas com consequências profundas: quando muda a forma como um adulto compreende o comportamento de uma criança, também pode mudar a maneira como ele responde a ela.
E, muitas vezes, é justamente nessa mudança de olhar que começa a transformação de uma relação inteira.
Essa é a missão que Michelle Bottrel e Sarah Mendonça buscam ampliar por meio do Instituto Eduque Bem: produzir e multiplicar conhecimento para que mais profissionais estejam preparados para orientar famílias com responsabilidade, método e uma compreensão mais profunda sobre a infância.
Para quem deseja conhecer mais de perto esse trabalho, os projetos, conteúdos e iniciativas podem ser acompanhados pelo Instagram do Instituto Eduque Bem, @institutoeduquebem e também pelos perfis de suas fundadoras, Michelle Bottrel, @michelleviegasbottrel e Sarah Mendonça, @sarahmendoncaeducadora.
GALERIA DE FOTOS: