Alterações hormonais, estresse, privação de sono e sobrecarga emocional estão entre os fatores que podem afetar concentração e memória feminina; especialistas explicam quando a queixa merece atenção
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| Foto: Divulgação |
Esquecer uma palavra no meio de uma conversa, perder o raciocínio durante uma atividade, entrar em um cômodo e não lembrar o motivo ou sentir dificuldade para se concentrar são situações relatadas por muitas mulheres em diferentes fases da vida. Embora esses episódios nem sempre indiquem um problema neurológico, especialistas alertam que a memória feminina pode sofrer influência de uma combinação de fatores, como alterações hormonais, excesso de responsabilidades, qualidade do sono e saúde emocional.
Uma pesquisa publicada em 2024 na revista científica Menopause analisou a chamada “névoa mental” (brain fog), termo usado por muitas mulheres para descrever dificuldades de concentração, lapsos de memória e sensação de lentidão mental durante a transição para a menopausa. O estudo aponta que essas queixas são frequentes nessa fase e podem estar relacionadas às mudanças hormonais que acontecem no organismo feminino.
Outro levantamento realizado pelo projeto Study of Women’s Health Across the Nation (SWAN), que acompanha mulheres durante a meia-idade, avaliou aspectos como memória verbal, velocidade de processamento e memória de trabalho. Os pesquisadores identificaram alterações cognitivas em determinados períodos da transição menopausal, reforçando que essa fase pode envolver mudanças no funcionamento cerebral.
Apesar disso, especialistas destacam que nem todo esquecimento está relacionado ao envelhecimento ou a doenças neurológicas. Em muitos casos, fatores do cotidiano podem interferir diretamente na capacidade de concentração e na recuperação de informações.
Para a psiquiatra Jessica Martani, a memória depende de um conjunto de fatores que envolvem tanto aspectos físicos quanto emocionais. Segundo ela, mulheres que enfrentam períodos de estresse intenso ou alterações hormonais podem perceber mudanças na forma como o cérebro processa informações.
“A memória não funciona de forma isolada. Ela depende de uma série de fatores, como qualidade do sono, níveis de estresse, ansiedade, alimentação, atividade física e também das alterações hormonais que acontecem ao longo da vida da mulher. Em períodos como a perimenopausa e a menopausa, muitas pacientes relatam dificuldade de concentração, sensação de mente mais lenta e esquecimentos pontuais, mas isso precisa ser avaliado dentro da realidade de cada pessoa”, explica.
A especialista ressalta que a sobrecarga mental também pode gerar sintomas semelhantes aos de uma falha de memória. Mulheres que acumulam diferentes funções, como trabalho, cuidados familiares e demandas pessoais, podem ter dificuldade para manter a atenção, o que interfere diretamente na capacidade de registrar novas informações.
“Quando o cérebro está constantemente em estado de alerta, lidando com preocupações, excesso de tarefas e estresse, ele passa a priorizar a sobrevivência e pode apresentar dificuldade para armazenar ou recuperar informações. Muitas vezes, a mulher interpreta isso como perda de memória, quando na verdade existe uma dificuldade de atenção causada pelo excesso de demandas”, afirma.
Estimulação cognitiva ajuda a manter o cérebro ativo
Embora exista a ideia de que o envelhecimento esteja sempre associado à perda da capacidade cognitiva, a neurociência mostra que o cérebro continua capaz de criar novas conexões ao longo da vida. Esse processo, chamado neuroplasticidade, é favorecido quando há estímulos intelectuais e novos aprendizados.
A gerontóloga Dra. Thais Bento, doutora em Neurologia pela USP e especialista do Supera Estimulação Cognitiva, explica que atividades que desafiam o cérebro podem contribuir para preservar memória, raciocínio e autonomia.
“Os resultados das pesquisas demonstram que a estimulação cognitiva promove ganhos importantes na memória, nas funções executivas e no desempenho cognitivo global. Isso reforça que o cérebro permanece capaz de aprender, adaptar-se e desenvolver novas conexões durante toda a vida. Quanto mais ele é estimulado, maiores são as possibilidades de preservar autonomia e qualidade de vida”, afirma.
Segundo a especialista, o cuidado com a saúde cerebral não deve começar apenas quando surgem dificuldades importantes. A prevenção tem papel fundamental na manutenção das funções cognitivas.
“A estimulação cognitiva possui um importante papel preventivo. Não devemos esperar que a memória apresente falhas importantes para começar esse cuidado. Quanto mais cedo esses estímulos fizerem parte da rotina, maiores são as chances de preservar as funções cognitivas e a independência durante o envelhecimento”, completa Dra. Thais Bento.
Sono, exercício físico e alimentação influenciam a memória
Além dos estímulos intelectuais, hábitos relacionados ao estilo de vida também interferem no funcionamento cerebral. A prática regular de exercícios físicos melhora a circulação sanguínea, contribui para a redução de processos inflamatórios e está associada à manutenção das funções cognitivas.
O sono também tem papel essencial. Durante o descanso, o cérebro organiza informações recebidas ao longo do dia e consolida memórias. Por isso, noites mal dormidas podem prejudicar atenção, concentração e capacidade de aprendizado.
A alimentação equilibrada e o acompanhamento de condições como hipertensão, diabetes e colesterol elevado também fazem parte da prevenção. O controle desses fatores reduz riscos relacionados ao envelhecimento cerebral e ajuda a preservar a saúde do sistema nervoso.
Aprender coisas novas estimula conexões cerebrais
Manter uma rotina sem novidades pode fazer com que o cérebro utilize menos recursos para realizar determinadas tarefas. Por isso, inserir novos aprendizados no dia a dia é uma estratégia para estimular diferentes áreas cognitivas.
Aprender um idioma, tocar um instrumento, fazer cursos, praticar atividades artísticas ou desenvolver novos hobbies são formas de exercitar memória, criatividade e capacidade de resolução de problemas.
A terapeuta Glaucia Santana, do Espaço HI, explica que pequenas mudanças na rotina também podem funcionar como estímulos importantes.
“Quando repetimos exatamente os mesmos comportamentos todos os dias, o cérebro passa a economizar energia. Alterar pequenos hábitos, como mudar um caminho, aprender uma atividade diferente ou utilizar a mão não dominante em tarefas simples, obriga o cérebro a reorganizar circuitos e fortalece sua capacidade de adaptação”, afirma.
Segundo ela, a curiosidade é um dos principais motores desse processo. “Sempre que aprendemos uma habilidade que foge da rotina, ativamos regiões relacionadas à memória, criatividade, coordenação motora e resolução de problemas. Esse aprendizado contínuo ajuda a manter a mente ativa e flexível em qualquer fase da vida”, destaca.
Hobbies e relações sociais também protegem a saúde cerebral
Além do aprendizado, atividades prazerosas e momentos de interação social têm impacto positivo sobre o cérebro. Conversar, trocar experiências e manter vínculos afetivos estimulam memória, linguagem, atenção e inteligência emocional.
Para Glaucia Santana, as relações humanas funcionam como um exercício cognitivo natural.
“O cérebro é profundamente social. Toda conversa significativa exige interpretação, memória, atenção e inteligência emocional. Quando convivemos com pessoas que nos desafiam a aprender, refletir e enxergar novas perspectivas, estamos estimulando diferentes áreas cerebrais de maneira espontânea”, explica.
A psiquiatra Jessica Martani também destaca que reservar espaço para atividades prazerosas é uma forma de reduzir a sobrecarga mental.
“O cérebro precisa de momentos de recuperação. Quando uma pessoa vive em uma rotina de cobrança constante, sem pausas e sem atividades prazerosas, aumenta a chance de apresentar sintomas como irritabilidade, dificuldade de concentração e sensação de esgotamento mental. Cuidar da saúde emocional também é uma forma de proteger a memória”, afirma.
Apesar de esquecimentos pontuais serem comuns, especialistas alertam que mudanças persistentes devem ser investigadas. Dificuldades que começam a interferir na rotina, no trabalho ou na autonomia precisam de avaliação profissional.
“É importante diferenciar uma falha pontual de memória, que pode acontecer com qualquer pessoa, de alterações persistentes que começam a prejudicar a autonomia. Quando existe uma mudança significativa no funcionamento habitual, é fundamental buscar uma avaliação adequada”, finaliza Jessica Martani.
Pesquisas utilizadas como referência:
“Menopause and brain fog: how to counsel and treat midlife women” (Menopause, 2024)
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38888619/
“Evidence for Cognitive Aging in Midlife Women: Study of Women's Health Across the Nation” (Psychology and Aging)
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28045986/