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Fantasia: onde a identidade infantil começa a ser construída

6 de Julho de 2026

Antes de aprender a se vestir, a criança já sabe quem quer ser

A cada fase da infância que passa, os pais tomam menos decisões simples do dia a dia, uma vez que as crianças vão se tornando mais independentes. No começo eles decidem tudo. Uma saída de maternidade é extremamente idealizada, pensada e bordada com todo o carinho. Os mesversários são muito bem celebrados com temas e roupas diferentes em cada um. O tão aguardado primeiro aniversário, onde a família inteira, com roupas que passaram por uma curadoria minuciosa para estarem em uma mesma paleta de cores, aparece cantando parabéns atrás da mesa do bolo.

Com o tempo, a batalha mais séria do dia deixa de ser a hora de dormir, ou de comer frutas e legumes. Passa a ser impedir que a roupa nova seja usada para dormir, que o vestido de festa não saia de casa em um dia de semana qualquer ou que o tênis incompatível com o clima acabe nos pés da criança, que já sabe quem quer ser, e não quer mais que a roupa que veste seja apenas uma escolha dos adultos.

Foto: Freepik/Magnific
 

E, quando finalmente surge a pergunta “o que você quer vestir?”, a resposta dificilmente é “uma calça jeans”. Na maioria das vezes, a escolha será vestido de princesa, uma roupa de super-herói, uma asa de borboleta. Quase sempre, uma fantasia.

O estilo costuma ser tratado como uma questão de estética, mas sua origem está muito antes disso. Antes de existir qualquer preocupação com tendências, combinações ou bom gosto, já existe um impulso fundamental: usar a roupa para experimentar uma identidade. O nome “estilo” só virá anos depois; o impulso, porém, já está ali.

A fantasia é o primeiro laboratório de identidade da infância, um espaço onde vestir outra identidade é uma forma de descobrir a própria. As crianças deixam de ser quem são e se tornam o personagem, sem haver uma distância entre os dois. Ele não representa o pirata, ele é o pirata, ao menos enquanto a fantasia estiver no corpo.

Essa transformação não acontece apenas na imaginação. Em 2017, a psicóloga Rachel White e sua equipe investigaram um fenômeno conhecido como Batman Effect (Efeito Batman). No experimento, crianças eram convidadas a realizar uma tarefa monótona e difícil. Algumas a faziam sendo elas mesmas; outras eram incentivadas a assumir a identidade de um personagem, como o Batman, perguntando a si mesmas: "O que o Batman faria agora?". As que incorporavam o personagem persistiam por mais tempo, demonstravam maior autocontrole e desistiam menos da tarefa. A fantasia, portanto, não funciona como uma simples brincadeira. Quando a criança veste uma identidade e passa a agir a partir dela, ela empresta ao próprio comportamento algumas das qualidades que atribui aquele personagem. É como se, por um momento, a coragem, a disciplina ou a determinação do herói também passassem a ser suas.

Crescer significa experimentar diferentes versões de si mesmo, e a fantasia participa desse processo não como uma fuga da própria identidade, mas como uma ferramenta para explorar quem a criança ainda pode se tornar. Afinal, a infância é justamente o período em que essa identidade está sendo construída. Escolher uma fantasia de princesa, por exemplo, revela menos uma preferência por tecidos, cores ou caimentos do que o desejo de experimentar uma forma de existir no mundo. Talvez essa seja, no fim das contas, a maneira mais honesta de vestir uma roupa.

Poucos adultos sairiam de casa vestidos de Batman, mas muitos vestem um blazer com bom caimento antes de uma reunião porque os faz sentir mais competentes. Outros calçam um salto para se sentirem mais confiantes. As pessoas continuam vestindo versões de quem gostariam de ser, a diferença é que na infância esse processo acontece sem qualquer disfarce. Na vida adulta, o mesmo impulso ganha nomes mais sofisticados: elegância, profissionalismo, tendência ou bom gosto. Mas a essência permanece a mesma: “quem eu quero ser hoje?”

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Colaboração / Conteúdo produzido e fornecido para o Cartão de Visita News por Gabriela Craveiro
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