Colaboradores - Ruvin Singal

O Retorno transforma o palco em território do impossível no Sesc Santana

7 de Fevereiro de 2026

Fui pessoalmente aplaudir O Retorno — e saí do teatro com a certeza de ter testemunhado uma experiência rara. Sob a direção impecável de José Roberto Jardim, o espetáculo reafirma o teatro como esse lugar singular onde o impossível não apenas acontece, mas respira e habita.

A trama se desenvolve a partir da dor profunda de um casal marcado pela perda: uma mãe e um pai que lamentam a morte do único filho. O luto, inicialmente silencioso e devastador, ganha contornos inesperados quando, de forma surpreendente, o filho reaparece. A partir desse ponto, a narrativa revela a fragilidade emocional e a disfunção desse casal, incapaz de reconhecer — ou aceitar — a realidade que se impõe diante deles.

Mais do que contar uma história, O Retorno provoca o espectador a refletir sobre negação, ausência, memória e a fronteira tênue entre o real e o imaginado. O texto é conduzido com sensibilidade e tensão constante, sustentado por atuações que expõem a alma dos personagens sem concessões.

O figurino, assinado por Leopoldo Pacheco, é um capítulo à parte. Com um visagismo de bom gosto absoluto, ele dialoga com o psicológico das personagens e reforça a atmosfera densa e simbólica da encenação.

Já a iluminação de Aline Santini é, literalmente, um espetáculo à parte. Precisa e inventiva, ela conversa o tempo todo com o texto, ampliando emoções, sugerindo estados de espírito e conduzindo o público pelas camadas da narrativa com elegância e impacto visual.

O Retorno é daqueles espetáculos que não apenas se assistem, mas se sentem. Um convite ao desconforto, à reflexão e ao encantamento. Imperdível. Extraordinário.

Serviço

O Retorno
Sexta a domingo, às 20h
Até 01 de março
Sesc Santana

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