A palavra “Okan”, em yorubá, língua ligada à ancestralidade africana, significa coração, e traduz com precisão o que essa companhia paulista de dança representa.
Em junho, a Cia Okan completa uma década de existência e arte feita com alma, e se tornou sinônimo de inovação e representatividade cultural. Não apenas existe: transformou o panorama da dança a dois nos palcos do Brasil e formou alguns dos artistas mais influentes da atual geração.
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Where You Wanna Be - Cia Okan |
| Foto: Acervo Pessoal |
Ao retornar ao Brasil, após uma longa turnê internacional, o bailarino, coreógrafo, ator e cantor Rafael Machado, carregava uma forte questão: por que o Brasil, tão grande, tão diverso, tão dançante, não tinha espetáculos de dança de salão como parte de sua cultura? E foi esse o pensamento que transformou a dúvida em uma certeza: o país precisava de um show latino que refletisse sua própria essência.
“Eu pensava muito que, no Brasil, se você dança mas não quer ser professor, você não teria muitas opções para atuar profissionalmente. Não existiam muitos espetáculos de dança de salão no Brasil, por exemplo. Isso sempre foi muito difícil”, comenta Machado.
A resposta veio através da criação. Foi assim que Rafael começou seu projeto independente. Inspirado no espetáculo Burn the Floor, ele reuniu um grupo de renomados profissionais de São Paulo e em 2013 surgem as montagem dos primeiros trabalhos, as sementes que mais tarde dariam frutos que nem ele imaginava.
Em 2015 a Cia Okan produzia o espetáculo “Que Se Sienta”, apresentado no palco do Teatro Ruth Escobar, e foi um grande sucesso. Logo, Rafael entendeu que o caminho não seria a criação de um show isolado, mas sim uma companhia, uma estrutura, que desse continuidade a um propósito em movimento.
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| Cia Okan no Teatro Ruth Escobar (Acervo pessoal) |
| Foto: Acervo Pessoal |
Em duas décadas, Rafael Machado acumulou passagens por algumas das maiores produções musicais do mundo, como Miss Saigon, Cats, New York, New York, Fame, A Madrinha Embriagada, Ghost, O Homem de La Mancha, Os Produtores e Aparecida, colaborando com diretores e coreógrafos de referência, como Fred Hanson, José Possi Neto e Alonso Barros. Ao longo da carreira, também assinou coreografias em produções de peso, como Marrom – O Musical, e atuou em seriados na TV, e no programa Dancing Brasil, como professor da celebridade Milene Domingues. Ao mesmo tempo que se destacava como um artista multifacetado, ele também construía uma sólida atuação como professor e com essa mistura de palco, direção, criação e docência, Rafael se tornou um nome de referência na cena da dança e do teatro musical.
Quando o fazer artístico impulsiona o desenvolvimento humano
Desde o início, Rafael tinha um desejo claro: a Okan não buscaria bailarinos perfeitos, sua missão seria potencializar o talento de seus próprios artistas, moldar identidades, e explorar as possibilidades de um corpo que sente antes de executar.
“A origem da palavra Companhia, significa compartilhar o pão”, lembra Rafael, e ele sempre fez isso com generosidade, ao compartilhar seu conhecimento e experiência profissional única e plural sem moderação. Essa filosofia transformou a Okan em uma fábrica de talentos.
Dançarinos que passaram por lá, hoje são destaque no cenário internacional de dança a dois e estão transformando a história das danças brasileiras pelo mundo. Do Samba ao Zouk Brasileiro, artistas levam consigo a marca da Okan: técnica elevada, sensibilidade cênica e identidade própria.
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Rafael Machado |
| Foto: Acervo Pessoal |
Ao longo dos anos, as apresentações sempre fortes e cheias de personalidade influenciaram e inspiraram a forma de fazer arte na dança a dois em São Paulo. Sob direção de Rafael Machado e Geysa Ruiz, a companhia estreou mais de 40 trabalhos originais e recebeu premiações importantes, como Conweb Dance International e os Prêmio Neyde Rossi e Jorge Pena, também realizou apresentações na TV, e inúmeros shows pelo Brasil e América do Sul.
Até hoje, a companhia se dedica a apoiar ações em prol de tornar a dança acessível e busca estender seus valores não somente nas histórias contadas por ela no palco, mas promovendo educação e cultura. O mais popular de seus projetos educacionais é o curso intensivo “O Processo”, uma imersão criativa que permite que qualquer pessoa possa vivenciar um dia real na sala de ensaio do grupo, com direito a criação da coreografia pelos coreógrafos, ensaiadores, e treinamento junto aos integrantes.
“Quando pessoas me perguntam como eu desenvolvo nossos trabalhos, não é algo que eu consiga explicar verbalmente. É preciso conviver, sentir, estar dentro.” Explica a Rafael sobre o projeto que reforça a visão de que dança é partilha, e dá acesso ao público geral a experiência e aprendizado em nível profissional.
Ao completar 10 anos, a Cia Okan comemora uma linda história de coragem, inovação, a formação de grandes artistas, e celebra uma nova era de de talentos que ainda tem muito a dizer.