Cultura - Música

Hebert Neri fala sobre o sucesso e a influência da música brasileira em Portugal

4 de Outubro de 2019

Não é raro ouvir a música brasileira em Portugal. Seja na rádio ou em bares, restaurantes e casas de show no Porto, em Lisboa, ou até mesmo nas baladas, você pode ouvir o som do Brasil sem precisar cruzar o Atlântico. Portugal já conta também com grandes festivais brasileiros como o Rock in Rio Lisboa, o Villa Mix Festival e tantos outros eventos que trazem os maiores artistas do Brasil para cantar os seus sucessos em Portugal. Logo a música brasileira já não é nenhuma estranha para os ouvidos europeus, de modo algum.

Mas o que explica a influência cultural da música brasileira em Portugal? O músico, produtor e compositor brasileiro Hebert Neri tem algumas teorias sobre esse fenômeno. Ele está em Portugal e tem desenvolvido diversos trabalhos artísticos e culturais, tendo um panorama da cena cultural e musical de ambos os países. Hebert foi uma das atrações do Festival Gerações no norte do país, é tecladista da banda de pop rock portuguesa D'Alma e já se apresentou na RTP1 com sua banda, que é das principais emissora da TV portuguesa.

Hebert Neri em estúdio com o engenheiro de áudio Serginho Charantola
Foto: Reprodução / Instagram

Por que a música brasileira está fazendo sucesso em Portugal?

Para Neri, existem diversos motivos que explicam porque a música e os artistas brasileiros são hoje tão influentes em Portugal: "acredito que tudo terá começado com as novelas brasileiras, que são exibidas aqui há anos e trazem consigo nossa cultura, música, sotaques, pronúncia e costumes. Acredito que as novelas foram pioneiras neste aspecto e abriram portas para os artistas e para a cultura brasileira na Europa muito antes da explosão das redes sociais, do YouTube e da própria internet, a preparar terreno para que houvesse uma melhor aceitação do público português para a nossa produção cultural".

O músico também acredita que o que encanta os portugueses em relação à música brasileira possa ser a diversidade: "é possível que o português se encante não apenas com as cadências da nossa pronúncia, mais suave e ritmada, mas também com a diversidade e riqueza da música brasileira", explicou. Portugal, ao longo dos séculos, teve influências mouras, celtas e de outros povos que vieram para a península ibérica, o que se reflete na sua música, arquitetura, arte e até mesmo na pronúncia", considerou o produtor.

"O Brasil, contudo, em curto período de tempo, teve além da colonização portuguesa a influência germânica, italiana, africana, japonesa, indígena e recentemente norte-americana, onde alguns especialistas acreditam que a fusão do jazz estadunidense com o samba herdado dos povos africanos terá sido a inspiração para a Bossa Nova, por exemplo", contrapôs. "Somos um país de uma diversidade cultural imensa e que ocorreu em um período muito curto de tempo, o que torna nossa musicalidade única no mundo e extremamente atrativa".

Hebert também conta que embora Portugal tenha uma cultura musical riquíssima, a produção musical é menos diversificada que a brasileira: "o que vejo aqui é que existe muita música no país e com uma riqueza impressionante, em cada uma das regiões, que mesmo tão pequenas têm dialetos, pronúncias e até mesmo instrumentos que lhes são próprios", afirmou. "Contudo, em boa parte, são cantigas folclóricas, regionais, e que não ganham os grandes palcos a todo tempo, o que faz com que o público português acabe por, embora tenha muito orgulho e apreço por sua música, consumir hits internacionais, do pop, do rock e gêneros mais voltados às massas. O Brasil produz desde o Axé de Ivete Sangalo até ao rock dos Detonautas, passando pelo pop de Anitta, o funk de Kevinho e a MPB de Caetano Veloso, Djavan, Ivan Lins e a nova MPB de Anavitória e Tiago Iorc, por exemplo".

O poder da música

No entanto, Hebert ressalta que a música é uma das artes que mais consegue atingir a alma e o coração de uma forma especial: "acredito também que a música brasileira é bem aceite em Portugal porque há muito mais o que nos une do que o que nos separe. Não existiria Brasil se não fosse Portugal, somos filhos desta terra, e daqui herdamos o idioma, muitos costumes e muito do que somos."

O produtor acredita que, quando o ouvinte português se depara com a música brasileira, não é apenas alcançado pelo poder de emocionar e tocar que a música tem, "mas também pelo sentimento de pertença, de fazer parte disto, de termos raízes profundas em comum e que felizmente, graças a globalização e a internet, hoje se tornam mais profundas e já não há hiato entre o que acontece cá e lá. As semelhanças entre Brasil e Portugal estão nítidas e vão muito além do idioma".

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