Colunistas - André Garcia

Segurança Viária: o Dilema da Segurança do Trabalho

7 de Agosto de 2018
Acidente de Trajeto em Cubatão
Foto: Irandy Ribas

Quando criei o Projeto Motociclismo com Segurança em 2012, após anos atuando como jornalista em duas rodas, somando meu expertise em Direito, produto (moto) e como usuário de moto(hard user), notava a grande demanda não no mercado, mas na sociedade.

Analisando os números do DPVAT e INSS, passei oferecer meu serviço para empresas e tomei ciência da triste realidade: existe demanda, mas o departamento de Segurança do Trabalho tem pouca verba, quando tem, e o pior: tempo escasso.

Entre 2012 e 2013, escrevi textos que, graças à Deus, continuam atuais, apesar de mudanças numéricas ou pequenas alterações estatísticas.

Desde então, vendo a dificuldade da Segurança do Trabalho na possibilidade de remunerar, encarei o desafio em fazer de graça, isso mesmo, gratuitamente, sempre buscando patrocínio ou apoio. Das dezenas de empresas que já atendi, apenas uma tinha verba para me remunerar, mas a qualidade do serviço prestado nunca foi alterado pela questão pecuniária.

Minha atitude se deu, porque quando você tem marcado no espírito, a arte de ensinar e sabendo que a informação salva vidas, a questão de remuneração, bem como, se determinada pessoa jurídica merece ou não, fica em segundo plano. Não quero saber se o cara é corinthiano, palmeirense, negro, branco, índio ou japonês, é necessário salvar aquele cara.

Antoniosi de Matão para toda linha de produção para educar funcionários e colaboradores

Antoniosi de Matão para toda linha de produção para educar funcionários e colaboradores

Foto: Diego Cipó

Como falo nas palestras: acidente de trânsito não é kármico, não estava traçado no destino, não foi determinação de Deus, mas é única e exclusivamente sua responsabilidade em prevenir.

Ahh!!! mas a culpa foi do outro. Ok! E o que você poderia ter feito para se livrar ou amenizar?

Quando escrevi as matérias para revista da Moto!, “Excluídos” e “Hora de Mudar” e para revista CIPA, “A dualidade da motocicleta: qualidade de vida X acidente de trabalho “in itinere”” (que me valeu o Prêmio ABRACICLO de Jornalismo 2013 na categoria revista)  e “Fatores no acidente de trabalho in itinere com motocicleta”, note como o assunto está intrinsecamente relacionado um com o outro; senão vejamos: o Estado equivocadamente excluiu o veículo de duas rodas motorizado da Política Nacional de Mobilidade Urbana, soma-se a isso, o deficitário sistema de educação para o novo habilitado, explodindo tudo nas mãos de alguém, que é cobrado para consertar ou tentar minimizar os efeitos de uma política educacional pífia.

Após a palestra, demonstração de frenagem

Após a palestra, demonstração de frenagem

Foto: Diego Cipó

Não vou aqui, ampliar a discussão para outros setores, o Centro Paula Souzacriou a matéria de Mobilidade e eu mesmo, estou viajando todo o Estado de São Paulo, visitando ETEC´s e FATEC´s, realizando ações que já fazia nas empresas, todavia, com mais conteúdo, por ter mais tempo. (leia aqui) E a Universidade Federal de Rondônia, é a primeira universidade no Brasil, não só a estudar o trânsito, mas oferecer curso de pilotagem, adotando meu projeto como matéria de extensão universitária.(leia aqui)

Voltando a cerne da questão, cabe aos Técnicos e Engenheiros de Segurança do Trabalho a missão de consertar ou minimizar os efeitos desses equívocos, para em uma visão puramente capitalista, amenizar prejuízos com o afastamento de um colaborador por acidente de trabalho in itinere ou de trajeto.

Na Marginal Tietê solução de gênio: proíbe a via expressa e coloca o motociclista na pista local onde caminhão quer sair da via

Na Marginal Tietê solução de gênio: proíbe a via expressa e coloca o motociclista na pista local onde caminhão quer sair da via

Foto: Arquivo André Garcia

A questão remuneração foi superada, todavia, a questão TEMPO, ainda é uma questão palpitante para se resolver. Todavia, fico estarrecido quando sou chamado em alguma empresa e o técnico ou o engenheiro em tom quase que implorando para eu não levar mais de 30 ou 40 minutos. Não vou nem comentar o abatimento do caboclo ou cabocla, às vezes a olheira de exaustão, digno daquele que está sendo fritado, causa constrangimento.

Como pode?

Será que alguns executivos pensam que o pessoal de Segurança do Trabalho mudou de ramo?

Sim, porque mágica só no circo ou casas de shows.

Se o grande problema do nosso trânsito é a violência por falta de educação que foi ofertada com pouquíssimo tempo, sem levar em consideração as falhas de ordem conceitual, como por exemplo, a frenagem adequada de uma motocicleta ou o ajuste do retrovisor de um automóvel; como este executivo quer que em 30 minutos ou 40 minutos, uma vez por ano (quando o ideal seria 3 ou mais vezes) a Segurança do Trabalho evite que o colaborador fique ileso sem se afastar do trabalho por uma ou duas semanas, talvez meses, talvez nunca mais volte???

É difícil entender ou precisa desenhar que educação de qualidade com tempo, diminui o risco de acidente, no caso acidente de trabalho. E tal ação gera lucro. 

Se os profissionais em Segurança do Trabalho tem a função de garantir a segurança através da adoção de medidas com o objetivo de minimizar os acidentes de trabalho, doenças ocupacionais, bem como proteger a integridade física e psíquica dos trabalhadores durante a atividade laboral ou durante o seu trajeto na ida e volta ao trabalho, necessário que a empresa esteja ao lado da Segurança do Trabalho. Cobrar sem dar condições, me parece bem equivocado.

Aula de ponto cego. O primeiro a participar foi o dono da empresa

Aula de ponto cego. O primeiro a participar foi o dono da empresa

Foto: Diego Cipó

Se Segurança do Trabalho pode ser entendida como o conjunto de medidas que são adotadas visando minimizar os acidentes laborais, doenças ocupacionais, bem como proteger a integridade e a capacidade do trabalhador, inclusive com vasta garantia legal, não se pode ficar só na teoria, mas a prática demanda tempo.

Gosto de citar como exemplo o case Antoniosi, cujo dono, parou a linha de produção para eu realizar as ações necessárias com tempo. Resultado: de agosto de 2016 à março de 2017, não teve um só acidente in itinere com motocicleta, bicicleta ou automóvel.  Necessário deixar bem claro: a empresa já vinha tomando uma série de iniciativas, todavia, depois da ação realizada em agosto de 2016 o resultado foi ZERO acidentes por 7 meses. (click aqui para ler a matéria)

Por fim, o óbvio: cultura só se adquire com tempo de educação. Por isso, o escopo do projeto é aculturar a sociedade em segurança viária e duas rodas, mas não se faz em 20, 30 ou 40 minutos. Leia mais aqui sobre o projeto.

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