Colunistas - Heródoto Barbeiro

Saiam da Frente

29 de Maio de 2018

Os fazendeiros olhavam com  desconfiança. Temiam que ela aterrorizasse os camponeses, provocasse grandes estouros das manadas nos pastos e com isso certamente a produção que servia de esteio da economia nacional desabasse. Só mesmo um maluco, insensato e antipatriota poderia propor uma medida como essa. Cortar o pais de um lado para outro, com uma máquina mal cheirosa, barulhenta, que espalhava fumaça para todo lado e punha fogo na vegetação marginal. O que queria aquele homem considerado um dos mais ricos do império ? Ficar ainda mais rico, efeminasse os soldados poupando-lhes grandes marchas, ou esgotar a economia nacional carregando toda a produção para os portos de exportação ? Era preciso pôr um breque no tal Irineu que insistia em importar locomotivas à vapor, trilhos e sinalização da Inglaterra. Contra tudo e contra todos, Irineu seguiu com o seu projeto e autorizou a partida da Baronesa. Ela percorreu os 15 quilômetros da Estrada de Ferro que ligava o porto de Mauá e em 23 minutos chegava às flanges da serra com uma velocidade média de 20 quilômetros por hora. O Brasil entrava na era das Maria Fumaças, uns 30 anos depois das primeiras estradas de ferro da Inglaterra. Ele não parou mais de implantar trilhos até que quebrou em uma manobra especulativa na rainha das ferrovias, a que levaria o café do interior paulista até o porto de Santos. Vieram os ingleses....

 

Um século depois o estado de São Paulo era cortado por ferrovias estatais. O trem ia atrás das fronteiras agrícolas e da estação Júlio Prestes saiam os comboios denominados Ouro Verde, ou Ouro Branco. Passageiros e cargas disputavam espaços nas diversas ferrovias. A iniciativa privada fundou a Companhia Paulista de Estradas de Ferro. Suas composições partiam da estação da Luz  em São Paulo, e aos poucos , graças ao padrão de qualidade dos seus vagões, entre eles o famoso Pullman, conquistou fama e adesão dos passageiros. Há quem diga que era possível acertar o relógio de bolso com  a chegada e saída dos trens. Tudo foi por água abaixo com a intervenção estadual, fusão das empresas, interesses políticos regionais, falta de visão estratégica e mesquinharias. Depois de muita política, na década de 1960, surgiu um monstro, a FEPASA. Não conseguiu andar com as próprias rodas. Quebrou. Em socorro veio o governo federal com a transformação de toda a malha ferroviária na Rede Ferroviária Federal. Daí para frente a ferrovia foi identificada com o atraso, com o desconhecimento do que se passava no mundo. As montadoras de caminhões e ônibus inter urbanos nadaram de braçada. Açambarcaram um imenso mercado de cargas e passageiros que deixaram de andar sobre trilhos e passaram a andar sobre pneus. O  petróleo era infinito e baratíssimo. Vieram mais montadoras...

As novas tecnologias aceleraram e transformaram o transporte sobre trilhos no mundo. Trens cada vez mais potentes, velocidades acima de 500 km por hora, conforto de avião, e túneis passando sob o mar. O trem se reinventou. O futuro está sendo construído com um veículo sobre trilhos que flutua e chega a 1.200 km por hora. A velocidade do som. As grandes cidades do mundo incentivaram o metrô e os trens metropolitanos, com isso é possível trabalhar no centro e morar a 90 km de distância. Mas os caminhonáveis rebatem que  apenas os caminhões de carga conseguem deixar o  produto na porta do consumidor final, não o trem. Governar é abrir estradas foi o mote de vários presidentes. O consumidor fugiu para o carro particular, ônibus e avião. Para a ferrovia sobrou a carga de produtos primários. Só 10 % de outros produtos andam de trem. Assim como no passado, quando o Brasil apostava tudo o que tinha em uma monocultura, se esta coluna afundasse, junto com ela afundaria a economia nacional. Os exemplos históricos são vários. Por hipótese, imagine se um dia os caminhões parassem. Se os caminhoneiros bloqueassem as rodovias. Se o governo, mais uma vez, se guiasse por soluções politiqueiras e sem visão de futuro, o que iria acontecer ? Seria o caos amplo, geral e irrestrito. Felizmente o país está longe disso, graças aos estadistas que governam Ibirapitanga, venceu a visão do barão e sua mania de assustar a todos com sua Maria Fumaça. Venceu?

  • Heródoto Barbeiro é âncora e editor chefe do Jornal da Record News em multiplataforma.
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