Quinta-Feira | 14 de Setembro de 2017 | 10h3

Mais de 90% dos casos de suicídio estão relacionados a transtornos mentais

 

Neste Setembro Amarelo, campanha digital alerta sobre a depressão e a possibilidade de prevenir essas mortes

Se por um lado as discussões relacionadas ao suicídio vêm ganhando mais espaço na sociedade e no âmbito da ficção, ainda é preciso avançar no entendimento dos aspectos médicos diretamente relacionados a esse problema. Mais de 90% dos casos de suicídio estão associados a distúrbios mentais, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). E os transtornos de humor, entre os quais se destaca a depressão, representam o diagnóstico mais frequente nesses casos, presente em 36% das vítimas. Também estão relacionados ao problema a dependência de álcool (em 23% dos casos), esquizofrenia (14%) e transtornos de personalidade (10%).

“Muitos acreditam que o suicídio resulta de uma escolha livre, como um exercício da liberdade entre escolher a vida ou a morte. Mas, na verdade, em quase 100% dos casos ele está associado a uma doença mental. Os dados da OMS mostram, por exemplo, que em apenas 3,2% dos casos não foi possível identificar um diagnóstico preciso entre as vítimas. Esses transtornos mentais alteram a percepção da realidade e podem interferir no livre-arbítrio”, afirma o psiquiatra José Alberto Del Porto, pós-doutor pela University of Illinois at Chicago (EUA) e professor-titular da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). 

Setembro Amarelo

Para desmistificar o assunto, desde 2014 o Brasil participa da campanha mundial Setembro Amarelo, com foco no Dia Mundial de Prevenção do Suicídio, celebrado no próximo dia 10. Neste ano, considerando a estreita relação do problema com os quadros depressivos, a Pfizer firmou uma parceria com o Centro de Valorização da Vida (CVV) para desenvolver uma ação digital de conscientização sobre a doença. Por meio de um videocase criativo e vinculado ao universo do teatro, que será disseminado a partir da hashtag #naoesotristeza, a ideia é desconstruir os estereótipos associados à depressão, esclarecendo que se trata de uma doença complexa e reconhecida pela OMS, que apresenta vários componentes biológicos e deve ser tratada adequadamente.

“Considerando a relação entre os transtornos mentais e o suicídio, o diagnóstico precoce dessas doenças deve ser a prioridade. E desmistificar o assunto, aumentando o debate e encorajando as pessoas na busca por auxílio médico, é uma forma de contribuir com toda a sociedade”, afirma o diretor médico da Pfizer, Eurico Correia. “Vale destacar que estamos falando de doenças para as quais existe tratamento, o que significa que o suicídio, em grande parte, pode ser prevenido a partir da adoção de medidas adequadas”, complementa.

Presidente do CVV, Robert Paris destaca a importância do suporte social a esses pacientes. “O apoio emocional e o estimulo à inclusão em grupos e vivências sociais que valorizem a pessoa são fundamentais”, afirma. Reconhecido pelo Ministério da Saúde, o CVV presta um serviço gratuito de prevenção do suicídio. A equipe de voluntários fica disponível para acolher e atender qualquer pessoa que busque apoio emocional, sempre de forma sigilosa, seja de forma presencial, em algum posto do CVV, ou por telefone (141) e canais da instituição na internet (chat, skype e e-mail), que podem ser acessados por meio do sitehttp://www.cvv.org.br/.

Perfil

Ainda que a prevalência da depressão seja maior nas mulheres em relação ao público masculino¹, o suicídio é muito mais comum entre os homens em todo o mundo.  No Brasil, um estudo sobre a mortalidade por suicídio no Estado de São Paulo, realizado pela Fundação Seade, reforça esse perfil. O trabalho, que levou em conta as certidões de óbitos dos Cartórios de Registro Civil de todos os municípios paulistas, aponta que 80% das vítimas de suicídio ao longo biênio 2013-2014 eram homens e que 72,3% deles tinham entre 15 e 64 anos de idade.

A literatura médica² relaciona alguns fatores considerados protetores para as mulheres em relação ao suicídio, como taxas menores de dependência de álcool, religiosidade mais pronunciada, maior propensão a buscar ajuda em momentos de crise, percepção precoce dos sinais de depressão e participação mais ativa em redes de apoio social. “Já os homens, em geral, expõem-se mais a mortes violentas, como o suicídio. E isso ocorre tanto por razões culturais como pelo fato de geralmente apresentarem mais fatores de risco, entre eles o alcoolismo e o uso de substâncias psicoativas”, comenta Del Porto.

Sob o ponto de vista cultural, o médico destaca outras especificidades do comportamento masculino que podem estar relacionadas às taxas elevadas de suicídio nesse público. “Os homens, de fato, sofrem mais pressão para que se mostrem fortes e tendem a procurar menos ajuda do que as mulheres. Além disso, sofrem mais com alguns estressores sociais, a exemplo do desemprego, das instabilidades econômicas e da perda do “status” social”, afirma o psiquiatra. “Vale destacar, contudo, que o suicídio é a consequência final de um processo e não deve ser atribuído, como muitas vezes se faz, a fatores desencadeantes imediatos, como uma perda recente, por exemplo”, complementa.

 

 

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Embora os homens sejam mais propensos ao suicídio do que as mulheres, há outros fatores de risco relacionados ao problema, como um histórico familiar para a doença, poucos vínculos sociais e solidão, além de desemprego, traumas e episódios de abuso ou maus-tratos na infância, bem como a presença de doenças clínicas não psiquiátricas, entre elas câncer, aids, enfermidades neurológicas e reumáticas. “Tentativas prévias de suicídio também devem ser consideradas nesse contexto. Cerca de 50% das vítimas de suicídio fizeram ao menos uma tentativa anterior”, afirma Del Porto. 

Sazonalidade

Os meses mais quentes do ano, sobretudo o início da primavera, em setembro, são aqueles que registram o maior número de casos de suicídio, segundo o estudo da Fundação Seade. Trata-se de um padrão já observado em outros países, a partir de estudos americanos e europeus³. A literatura médica aponta algumas hipóteses para esse cenário, como o fato de a vida social ser, geralmente, mais intensa nos meses mais quentes, o que poderia desencadear situações de estresse em pessoas com depressão. Alguns estudos sugerem ainda que a exposição à luz solar, mais intensa no calor, poderia interferir nos níveis do neurotransmissor serotonina, impactando os comportamentos e as emoções, especialmente no que se refere à impulsividade e à agressividade4 5.

Em outra frente, alguns psiquiatras discutem a “teoria das promessas quebradas”6 como forma de justificar a sazonalidade dos casos de suicídio, sugerindo que a primavera, feriados e fins de semana promovem uma expectativa de acontecimentos agradáveis – que, na prática, nem sempre se concretizam, o que teria um forte impacto para indivíduos vulneráveis. Essa hipótese também é utilizada para explicar a concentração de casos aos domingos e segundas-feiras. No estudo da Fundação Seade, por exemplo, 32% dos casos foram registrados nesses dois dias. Globalmente, grande parte dos estudos internacionais aponta a segunda-feira como o dia com a maior concentração de óbitos relacionados ao suicídio7.

 

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Saúde pública

A cada ano, são registrados no mundo cerca de 800 mil casos de suicídio, que já é considerado a segunda principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos, segundo a OMS.  De acordo com a entidade, o Brasil é o oitavo país do mundo em número de suicídios, com uma média de 5,8 casos a cada 100 mil habitantes. “Estamos diante de um verdadeiro problema de saúde pública, mas a prevenção não se limita à rede de saúde e deve levar em consideração aspectos biológicos, psicológicos, políticos, sociais e culturais, de forma que o indivíduo seja considerado como um todo em sua complexidade”, afirma Del Porto.

Na avaliação do psiquiatra, é preciso estimular um debate aberto sobre o tema, que ainda é tratado como tabu até mesmo entre os médicos. “Teme-se, muitas vezes, perguntar ao paciente sobre assuntos relacionados ao suicídio por pensar que a simples pergunta poderia sugerir a ele ideias de morte. Mas, na verdade, abrir espaço para o paciente falar sobre o tema poderá, muitas vezes, prevenir o problema. Perguntas mais genéricas sobre as perspectivas de vida e os planos desse indivíduo para o futuro podem ajudar a introduzir a temática com leveza”, conclui.

 

 

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