Terça-Feira | 4 de Abril de 2017 | 22h36

Com novo espaço, CCC abre as portas para Trilogia do Fogo

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três espetáculos sobre mulheres

Composta por três espetáculos breves sobre três mulheres em chamas, Erêndira, Pandora e Yerma, a trilogia investiga os arquétipos que são berço do que é considerado “ser mulher” e marca a estreia de Yerma, novo trabalho da Incandescente Companhia.

 

Independentes narrativamente, cada espetáculo conta a história daquela que lhe dá nome, ErêndiraPandora Yerma. A primeira trilogia do novo espaço do CCC - Centro Compartilhado de Criação começa no dia 14 de abril, sexta-feira, especialmente para estreia do novo espetáculo da Incandescente Companhia. No dia seguinte a Trilogia do Fogo começa sua temporada oficial com apresentação de Yerma aos sábados e a trilogia completa de domingos e segundas. Sábados e segundas às 20h e domingos às 19h até dia 1º de maio.

 

Erêndira a partir do conto latino-americano de Gabriel García Márquez, Pandora, texto autoral a partir da literatura historiográfica na mitologia grega e Yerma, texto teatral do espanhol Federico García Lorca montado integralmente. O trânsito entre três origens e formas literárias distintas amarra a busca pelos arquétipos femininos, em cada parte um embrião de transgressão. As três peças foram montadas sob supervisão dramatúrgica de José Rubens Siqueira, autor, tradutor e diretor teatral.

 

As três personagens têm em comum a inevitabilidade de seus destinos – e na fricção com a consciência de seus sonhos surge o fogo que as queima por dentro. Os dois primeiros trabalhos estrearam em 2015, ainda vinculados à pesquisa em direção nas Artes Cênicas na ECA/USP, sob orientação de Cibele Forjaz e supervisão do convidado José Rubens Siqueira. Yerma, em processo desde fevereiro de 2016, tem sua estreia nesta temporada, onde pela primeira vez a Trilogia estará completa.

 

Unidas temática e esteticamente, as três partes apresentam cenografia minimalista e encenação crua, usando os atores como principais meios de transporte da narrativa. A linguagem visual sugere três universos desérticos, adicionando símbolos das peregrinações femininas. Uma árvore, uma mesa, areia - muita areia nos universos áridos de mulheres que procuram espaço para respirar e se apropriar do próprio sexo e do próprio prazer.

 

ESTREIA

 

Yerma, como terceira e última parte da Trilogia, fecha o ciclo de mulheres-arquétipo.

O texto emblemático de Lorca continua vivo – o mito da mulher vazia, cheia de sonhos e desejos, trancada dentro de casa e dentro de si própria. O campo fértil torna-se deserto árido, e a libertação é também um cruel encontro com a inevitabilidade dos destinos femininos. Yerma mata para viver. Será liberdade ou condenação?

 

Intitulada pelo próprio Lorca de “poema trágico”, a história de Yerma - que quanto mais busca seus desejos, mais se distancia deles. Por mais que seja forte e determinada, tem seus sonhos todos mediados pelas pressões da divisão sexual do trabalho, da normatização do papel da mulher enquanto cuidadora e do lar, de que a mulher sem filhos não é uma mulher completa. Yerma ruma sem volta à desmedida de seus atos para transgredir suas dores e encontrar uma função no mundo.

 

Dado o nível de lirismo da poesia e dramaturgia do autor, o uso da música e das canções entram não como meras transições, mas extensão orgânica do texto falado; se confundem. Das muitas funções que tem o canto na peça, dentre elas narrar, comentar, e fazer sínteses poéticas de determinado ato ou quadro, a primeira delas é convocar e anunciar a tragédia. A canção que abre o “poema trágico” tem a função de anunciar a história ao público-mundo, literalmente acordando uma Yerma que dorme no chão do palco à frente da atriz-arauto que convoca a tragédia a se iniciar.

 

A Yerma que frequentemente sai de casa para andar com os pés descalços na terra foi base para a pesquisa de canto, respiração, coluna e pensamento – a Trilogia termina com um canto que é chamado; cujo tempo é sempre presente e se dirige à Natureza não aos homens. Todas as canções da peça são de autoria do grupo.

 

Erêndira, como parte I da Trilogia do Fogo, surge do desejo de trabalhar com um material latino-americano pulsante à cultura brasileira. O grupo encontrou em irmãos e vizinhos, povos que contam histórias partilhadas, “A incrível e triste história da Cândida Erêndira e sua avó desalmada”, de Gabriel García Márquez. A escolha do texto foi uma forma de verticalizar a construção da mulher latina, nascida numa cultura de colonização e revolta – e símbolo dela.

 

A parte II, Pandora, surge no mergulho em busca das origens: o mito grego sobre a primeira mulher – e, portanto, a primeira culpa atribuída ao gênero feminino. Na relação com a realidade contemporânea e as contradições do mundo atual, a peça cria três narrativas paralelas e mutuamente provocativas em cena: o titã Prometeus emergindo do sonhos da filha sonâmbula, narrando a origem do mito-Pandora, o cotidiano de repetição até a perda de sentido da família, o campo onírico da filha que as conecta todas.

 

“As três partes abordam, de forma poética e simbólica, os debates da objetificação do corpo feminino, da restrição ao mundo privado e exclusão do mundo público, a maternidade na carne, o controle e a repressão do nosso corpo e sexo. São temas que perpassam o universo das três solitárias mulheres – temas esses que andam nos mobilizando e ganhando cada vez eco,” comenta Marina Merlino, co-fundadora da Cia.

 

“Como Erêndira e Pandora, Yerma se mistura à areia e vira o mito de si própria para sobreviver. Os espetáculos convidam o espectador a cavocar quais os seus próprios mitos – onde eles habitam e de que se alimentam – para que, quem sabe, os incendeiem junto conosco,” termina Marina Merlino.

 

FICHAS TÉCNICAS

 

Erêndira - Direção: Marina Merlino Elenco :Daniel Mazzarolo e Giulia Castro. Iluminação: Pedro Dix. Cenário e Figurino: Marina Merlino. Operação de Luz: Matheus Brant. Operação de som: Pedro Dix. Produção: Incandescente Companhia.Fotografia: Karina Lumina Orientação: Cibele Forjaz. Supervisão: José Rubens Siqueira

 

Duração: 30 minutos

 

Pandora - Direção: Marina Merlino. Assistência de Direção: Pedro Dix. Dramaturgia: Giulia Castro. Elenco: Carolina Braga, Rafael de Sousa, Sofia Maruci, Vinicius Aguiar. Iluminação: Pedro Dix. Operação de Luz: Matheus Brant. Operação de som: Pedro Dix. Cenário: Marina Merlino. Adereços: João Grembecki. Figurino: Anita Blumenschein e Loren Chagas.Produção: Incandescente Companhia. Fotografia: Karina Lumina. Orientação: Cibele Forjaz. Supervisão: José Rubens Siqueira

 

Duração: 50 minutos.

 

Yerma - Direção: Giulia Castro. Assistência de Direção: Pedro Dix. Dramaturgia: Federico García Lorca. Elenco: Carolina Braga, Lucas Padovan, Maíra Nascimento, Marina Merlino, Rafael Souza e Sofia Maruci. Iluminação: Matheus Brant.Figurino: Nasha. Produção: Incandescente Companhia. Fotografia: Júlia Fávero e Karina Lumina. Coreografia: Lúcia Merlino. Supervisão: José Rubens Siqueira

 

Duração: 70 minutos.

 

SERVIÇO

Incandescente CompanhiaEstreia: Yerma, dia 14 de abril, sexta-feira, às 21h. Temporada Trilogia do Fogo:  Sábados às 20h, Yerma, domingos às 19h e segundas às 20h, Erêndira, Pandora e Yerma. De 15 de abril a 1º de maio. Local: CCC - Centro Compartilhado de Criação, rua Brigadeiro Galvão, 1010 - Barra Funda. Telefone: (11) 3392-7485. Entrada: R$20 inteira e R$10 meia. Capacidade: 100 lugares. Classificação: Livre.

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