Quarta-Feira | 14 de Dezembro de 2016 | 18h7

Raios narram a história do Brasil


O livro Brasil, que raio de história faz um passeio pela história do País através dos raios, desde o seu descobrimento, passando pelo Brasil Colônia e Império, até o Brasil República, finalizando com o futuro de um país considerado campeão mundial em incidência de raios.

A história do Brasil se mistura com a trajetória do conhecimento dos raios através dos tempos. Ora os raios foram apenas coadjuvantes da história do Brasil, ora os raios foram os atores principais da história de nosso país, mudando rumos e estabelecendo novos processos. 

No período anterior a 1500, quando os índios habitaram o Brasil, os raios eram tidos como manifestações divinas, associados a uma entidade mitológica chamada Tupã, e em geral eram enviados para punir o homem. Os índios acreditavam que um raio não caia duas vezes em um único lugar, e, por conta desta crença, toda vez que um raio atingia uma árvore, eles retiravam um pedaço do tronco danificado pelo raio, e usavam-no como adorno em um colar, acreditando que isso faria o raio não cair sobre eles. Essa crença cairia por terra séculos mais tarde, quando no Brasil República, o Cristo Redentor, uma das sete maravilhas do mundo, seria atingido diversas vezes por raios, e teria sua est rutura danificada pelas descargas elétricas.

Quando os portugueses chegaram ao Brasil em 22 de abril de 1500, com uma frota comandada por Pedro Álvares Cabral, trouxeram consigo lendas e superstições sobre os raios. Para afastar os raios quando relampejava, ou se ouvia o ribombar dos trovões, os portugueses cobriam espelhos, acediam velas, ou invocavam Santa Bárbara, que também tem sua história vinculada aos raios.

Conta a lenda que ainda jovem foi colocada dentro de um castelo pelo seu ciumento pai, Dióscoro, que queria resguardar a filha dos pretendentes a qualquer custo. Porém, em uma de suas viagens, Bárbara aproveitou para ser batizada e saiu do castelo. Descoberta e denunciada por um pastor, foi capturada por Dióscoro e, perante um tribunal, foi condenada e executada pelo próprio pai, que lhe cortou a cabeça com uma espada. Logo após sua morte, um raio fulminou Dióscoro. É por isso que Santa Bárbara é invocada nas tempestades para proteger contra os raios . O seu culto espalhou-se rapidamente pelo Oriente e pelo Ocidente, chegando ao Brasil com os portugueses.

Nas expedições que se seguiram até o ano de 1550, acredita-se que em muitas delas, os navios foram atingidos por raios, causando um cheiro típico de enxofre que os marinheiros detestavam, e ocasionando naufrágios, mudando a realidade das ordens portuguesas. Os danos causados pelos raios aos navios provocavam rombos nos cascos e fogo nos mastros, o que, em alguns casos, levava a explosões da pólvora armazenada. 

Durante o período Brasil Colônia, entre 1551 e 1807, muitos navios afundaram devido a fortes tempestades com raios. As tropas francesas, que estavam no Brasil, ao retornarem para o seu país de origem, foram surpreendidas por uma forte tempestade, que afundou três dos melhores navios, com 1.200 homens e boa parte das riquezas. 

Em 1808, o Brasil Império de Portugal trouxe D. João VI ao Brasil, que por ter muito medo de raios, mudou a sua morada, que seria no mosteiro de São Bento, local que atraía muitas faíscas elétricas, para a Quinta da Boa Vista, no Paço de São Cristovão, atualmente ocupado pelo Museu Nacional, no Rio de Janeiro. D. João VI cancelou cerimônias de beija-mão no Palácio de São Cristovão quando tempestades com raios e trovões ameaçavam a cair. Em 1819, um 

viajante prussiano, Theodor von Leithold disse em seus relatos: Se o rei não se sente bem, se adormece ou se sobrevém uma tempestade, o que produz sobre ele forte impressão, encerra-se em seus aposentos e não recebe ninguém. 

 

Nos 13 anos em que permaneceu no Brasil, D. João VI investiu na ciência. Criou o que hoje conhecemos como Jardim Botânico, no Rio de Janeiro, e lá, plantou em 1809, a primeira palmeira imperial, que em 1972, aos 162 anos, foi atingida por um raio, que destruiu sua bela copa e queimou seu cerne, além de entortar a grade que a circundava. & nbsp;


Raios - estudos e resultados 

Apesar de os raios acompanharem toda a trajetória do Brasil até agora, e fazer parte dela, foi somente no Brasil Império, entre 1822 e 1888, que as primeiras observações científicas dos raios foram feitas com câmaras fotográficas no Brasil. Em 9 de novembro de 1885, um jovem estudante de engenharia e funcionário do Observatório Nacional, Henrique Morize, então com 25 anos de idade, tirou a primeira foto de um raio no Brasil, na cidade do Rio de Janeiro.  

O estudo desta fotografia se deu por muito tempo, e, o raio, nesta época, era considerado um fluído que se propagava de forma instantânea. O elétron viria a ser descoberto pouco depois, em 1897, pelo físico britânico Joseph John Thomson. 

Já no período da República, viu-se a necessidade de estudar os raios, visto que, com a expansão dos meios de comunicação, fatos curiosos e grandes dramas relacionados aos raios se tornaram púb licos. Em 1926, em Santos, seis pessoas foram atingidas e mortas por um único raio, um triste recorde histórico para o país. Mais recentemente, em 2015, quatro pessoas morreram atingidas por raios, na Praia Grande, também no litoral de São Paulo.  

A partir de então, os raios passaram a ser monitorados e estudados por diversas técnicas. Mas foi somente no início do século XXI que um extenso e inédito estudo a respeito de mortes por raios no país foi realizado pelo Centro de Eletricidade Atmosférica ELAT / INPE. Os resultados do estudo apontaram um total de 1.321 mortes devidas a raios, durante o período de 2000 a 2009. Os resultados também indicaram que Manaus e o estado de São Paulo foram, respectivamente, a cidade e o Estado com o maior número de mortes. A maioria das mortes ocorreu no verão, e envolveu homens de meia-idade, pois esses ficam mais expostos a raios em atividades a céu aberto. 

As circunstâncias mais comuns envolv idas em morte por raios são: praticar atividades de agropecuária ao ar livre; ficar próximo a carros ou tratores, ou andar em motos e bicicletas; ficar em campo aberto, como em praias ou campos de futebol, embaixo de árvores ou perto de cercas; ficar perto de objetos que conduzem eletricidade, como telefone com fio ou celular conectado ao carregador; e permanecer em um abrigo aberto, como varanda, sacada, quiosque ou toldo. 

 

Em outubro de 2015, uma nova pesquisa, feita pelo ELAT, e baseada em dados coletados durante 15 anos (2000-2014), mostrou que o número de mortes por ano caiu de 132 mortes no primeiro período para 111 mortes no segundo período, sugerindo que as informações de como se proteger, veiculadas na mídia, surtiram efeito.  

 
O futuro da história  

 

Em 2011, o ELAT criou a primeira rede de monitoramento de raios com abrangência nacional, capaz de detectar tanto as descargas q ue atingem o solo quanto aquelas que permanecem dentro das nuvens. A Rede Brasileira de Detecção de Descargas Atmosféricas (BrasilDAT) utiliza sensores capazes de captar a radiação eletromagnética gerada pelos raios em uma ampla faixa de frequência. A BrasilDAT é a terceira maior rede do mundo e capaz de monitorar, em tempo real, a incidência de descargas em todo o país com alta eficiência e alto grau de precisão na localização do ponto de impacto das descargas no solo. 

 

Com a BrasilDAT será possível mapear com mais precisão a ocorrência de raios no Brasil, contribuindo para que projetos de proteção contras descargas elétricas possam ser elaborados com mais confiabilidade. 

 

O conceito do fenômeno raio evoluiu ao logo da história de nosso país, e hoje auxilia a humanidade a prever mudanças climáticas. Em um país campeão mundial de incidência de raios, com cerca de 50 milhões de raios por ano, tal constatação é, no mí nimo confortadora. 

Informações

Livro: Brasil, que raio de história 

Autores:  

Osmar Pinto Jr. (coordenador do ELAT / INPE) 

Iara Cardoso (jornalista e coordenadora de comunicação do ELAT / INPE) 

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